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Comboios perdidos para Bizâncio, IV: Jacob e o Anjo

[1993] A tarde doía por todos os lados. Música, tudo música a compactar-me o coração: uma bola que reduzi a um tamanho de nada e que cresce como um planeta. Os dias, imensos, daquele Março, Abril, Maio, que me pareceu um dia inteiro, repetindo-se, ardendo. Lembro-me de ir à praia em Março, mas de achar que o universo funcionava ao contrário porque tudo era ao contrário no meu coração. O dia era único, inteiro, porque era uma noite sem fim. Quando se acorda de calor, sem respiração, e com o corpo todo colado ao mesmo corpo. O meu coração ocupava espaço, crescia quanto mais o negava, queria algo que não era eu, que não era um livro, que era para além de mim. Porque é que tenho olhos para fora, e não tenho olhos para dentro, repetia-me.

Trocávamos cartas. Era o outro lado das cartas que me doía. Toda a minha adolescência, parece-me, foi feita entre o desespero pisado e o excesso escrito. Cartas e cartas atiradas para todos os lados. Isso custou-me bem caro duas vezes - e mais tarde, preparou-me para perceber um problema de cartas trocadas que se arrastava desde o século XVII. Mas naquele dia inteiro de Primavera de 1993, decidi que tinham de ir por outro caminho as cartas pesadas, aludindo, sussurrando, cortando-me todos os rios do futuro no peso do presente.

Bati então com o corpo todo e o coração (ervilha negada que crescia como um planeta) no Andante da Sexta Sinfonia de Mahler. Por uma vez, Jacob e o Anjo de Epstein cumpria-se: a música descia-me, e eu então não percebi que lutava comigo pela minha própria liberdade.

Dessa vez - a maior das primeiras vezes - esmaguei o coração tão profundamente que jurei querer ter para sempre um coração de pedra. De perda.

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