Avançar para o conteúdo principal

Comboios perdidos para Bizâncio, III: uma caixa de papelão




[2014] Uma caixa de papelão, alta, toda reforçada com fitas. Ridícula, quase. Lá dentro um edredão, cinco livros, um candeeiro. E uma mala tão cheia que não sabia como empurraria.
Ela tirou-me a minha última fotografia na cidade, em pleno Kurfurstendamm, num comboio iluminado, decoração de um Natal que era todo fim, sombra.
Levava as minhas coisas, as minhas quase últimas coisas, numa viagem toda noite, toda um comboio. Ia no comboio nocturno de Berlim para Bruxelas, com os restos de uma vida numa cidade que amei como nenhuma outra na minha vida. E tantos pesos para carregar, como um forçado à realidade. Só Natércia ecoava, luzia, me compreendia:
E ponho pesos sobre o coração
para o coração
sentir que o abandono (*).

Nunca como então senti que um comboio me separava fisicamente, quilómetro a quilómetro feito no corpo. Como se a cada ruído dos carris o comboio operasse em mim um corte, a consciência carnívora da decisão.
Lembro-me da carruagem cheia de chineses carregados de malas, a dormirem com as suas roupas de marca compradas em Berlim, o cheiro a plástico e a fim. De ouvir em angústia a Sinfonia Nº4 de Bruckner, a banda sonora do meu destino berlinense, e achar o meu biopic ridículo. Ou de trocar de comboio às 5 da manhã em Colónia, para uma hora de espera ao frio e à neve, carregado de ridículos sacos e de memórias maiores, com a caixa de papelão a desfazer-se a cada metro.
Esmagado: foi assim que acabei o dia e a viagem. Chegado a Bruxelas, à porta de casa, com as últimas forças a puxar malas e caixa de papelão de costas, entre neve e poças de água, tropecei num pilarete. Caí em cima da mala e com a enorme caixa de cartão, já meia desfeita, em cima da cara.
Nunca mais trocei com a “valise a carton”.

Natércia Freire, “Escada de Jacob”, in Anel de Sete Pedras, in Poesia Completa, V. N. Famalicão, Quasi, 2006

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Dezassete álbuns de 2017, parte I

Não é por nostalgia ou por me recusar à tecnologia que continuo a comprar CDs. Os motivos são inúmeros e merecem um outro "post". Mas para já, um argumento único, envelope desta selecção: não são uma realidade virtual recebida num écran, em que qualquer mecanismo tecnológico pode modificar as coordenadas do seu tempo; são saídos, impressos, gravados num objecto e distribuídos, são como a poesia, que é arte de fazer, mas também de concretizar o que não existia antes (como dizia Pierre-Jean Jouve).
Partilho dezassete albuns: os oito primeiros, saídos em 2017, reedições ou novidades  - feitos neste tempo por artistas de agora que procuram as raizes do antigo com as marcas do hoje. E estão aqui porque me marcaram neste tempo e serão por isso marcas do presente no futuro.
I. Last Leaf, The Danish String Quartet (ECM) Um som tão distante e antigo como uma floresta celta, onde o nosso sangue correu, ardeu e se levantou. Uma recordação de um lugar perdido bem longe no co…