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Comboios perdidos para Bizâncio, I: Um adeus em Möckenbrucke




[2013] Tínhamos de nos despedir, naquela tarde tardia de Fevereiro. Os nossos metros iam em direcções diferentes. Era a segunda vez que nos encontrávamos para um café, e tinha sido uma conversa interessante e descomplicada sobre como os fantasmas amorosos regem a nossa vida afectiva e a relação connosco próprios, desde as cantigas de amigo e de amor (minnealte em Alemão, fiquei então a saber). A neve caía então quase em pázadas, um frio tão largo e generoso que sabia ao fim do Inverno, a desibernar o coração.
Eu tinha de sair daquela composição de metro para mudar de linha. Veio então a despedida. Os portugueses são sempre mais dramáticos nas despedidas, disse-lhe, 500 anos a acenar em praias para navios em direcção a nunca mais.
Porque tinha fome e começava a perceber que a despedida era mais funda do que eu pensava e imaginava, usei a velha técnica católica de atirar as culpas para o pecado original, e atirei-me a uma maçã.
E nessa altura, num abraço meio desconjuntado e a saber a frio, com um caroço de maçã na garganta e as mãos doces, cortadas de frio, cavou-se um abismo. Ainda recordo o abraço sem jeito, o contacto da pele sobre camisolas e casacos, o ruído das portas do metro antes de fechar, olhos perguntando olhos. E um abismo no peito a que, durante um ano, chamaria coração.

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