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umas presidenciais mudantes

Foi a primeira vez em muitos anos que não votei numas eleições. A única e última tinha sido precisamente há 20 anos, quando Sampaio venceu Cavaco. Mas nessa altura não votei por motivos bem mais altos do que eu.
Desta vez foi a distância e uma viagem que não me deixaram votar. É tão estranho, com tantos ingleses e franceses que podem votar por procuração, como em Portugal isto não é permitido. Triste e abstencionista.

Vistas à distância de uma má ligação de computador, entre neve, frio e duplo estrangeiramento, pareceu-me que as análises bateram ao canto. Partilho o pouco que vi e o tanto que achei.

1. O vencedor
Ele é o seu próprio campeonato. Pode-se gostar ou não, mas Marcelo é um génio numa lâmpada única. Isto foi um referendo, não uma eleição. Não fez campanha, não foi de esquerda ou de direita (sendo absolutamente de direita), não precisou de apoio de ninguém, e vai para o seu lugar absolutamente independente - tendo sido tudo: afilhado de Marcelo Caetano, filho de um ministro do Estado Novo, corajoso jornalista, fundador do PSD, professor e mestre brilhante, excelente líder da oposição, comunicador total, estratega, maquiavelista.
Não há vencedores nem vencidos numa eleição destas. Não há cenários, pura e simplesmente. É uma carta fora do baralho, quando ele mesmo tinha todo o baralho na mão.

2. Costa
Sabia que não havia nada a fazer. Uma segunda volta levá-lo-ia a escolher, e a perder. Mas com isto arrumou a oposição interna. Não, Costa voltou a fazer uma jogada de mestre mesmo sem jogo. E nem a beliscadura do PCP o preocupa de todo: formou governo porque tinha parceiros, deixará de ter governo se os parceiros falharem, dará a volta por cima se não tiver parceiros e ganhará as eleições se elas chegarem.
Costa percebeu que o sistema político tinha mudado, e precisava de alguém que agisse de acordo.
Deixou o PSD encostar-se à direita (de onde dificilmente sairá, ou onde será apagado pelo CDS); colocou-se ao centro da esquerda. Aprovará tudo o que quiser, com jeito, conversando com ambos os lados. Sabe que agora com Marcelo ainda menos o PSD renegará a sua história votando contra orçamentos e medidas que Bruxelas pede. Ninguém poderia jogar um jogo sem jogo - só Costa. E agora, ainda mais, com Marcelo.

3. O Bloco e o PCP
O PCP teve apenas uma má escolha. Tudo anda satisfeito a interpretar a situação como se o PCP fosse castigado por ser um partido de poder. Má escolha e muitas escolhas à esquerda. Foi apenas isso.
O Bloco tem ganho a aposta pelo pragmatismo, quando na era final Louçã e na direcção dual o seu mal era querer agradar a todos.
Vão dar-se bem melhor com Marcelo do que pensam.

4. A direita
Mas claro que perdeu as eleições. Marcelo não foi um candidato de direita, sendo essa a sua área política. E não vai ter um presidente de facção como teve Cavaco até agora. A direita está a sangrar votos a cada dia que passa. Quando se estudar esta eleição ver-se-á que a abstenção foi do PSD e do CDS - que estão sem narrativa nem programa.

E subitamente o país fica interessante.

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