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Professor, o que é mesmo mesmo?



É como um novo Bojador: o conjuntivo. Cada aluno de Português sabe que se vai defrontar com esta sogra eterna quando aprende Português. Cada vez que tenho de os conduzir pelas tormentas de seis conjuntivos, não há oração que chegue. Mesmo.
Mesmo sabendo isso, faço tudo para os animar. Falo no mundo do conjuntivo como um lugar de felicidade, onde frases complexas podem ser construídas, como pontes entre continentes estranhos, ou galáxias imaginadas: com um pé no real e outro no impossível, com um pé no indicativo e outro no conjuntivo. Onde tempos verbais podem ajudar à complexidade do espírito, a saudades longas e montanhosas. Anos e anos e anos, e eu vou guardando o conjuntivo menos como as Linhas de Torres que deixam boa parte dos alunos de Português pelo caminho, mas mais como um pastel de nata eterno na sua magnífica complexidade.
Estando portanto preparado para todos os perigos, eu temia uma pergunta. Eu sabia que a pergunta haveria de me bater à porta. Não que a temesse: até que chegasse, na verdade, parecia faltar alguma coisa. Um cabo. Mas saberia que toda a difícil construção mental que tentava no cérebro dos meus queridos alunos haveria de ruir perante a chegada dessa pergunta. Cabo, disse? Não: ao fim e ao cabo, era uma hidra, de três cabeças.
            - Professor, mas o que é mesmo mesmo?
            A pergunta que eu temia.
            - Bom, já deu meia resposta. Então não vê que usou duas vezes a palavra e em cada uma delas com um significado diferente?
            Então expliquei: pode ser um pronome demonstrativo, como este ou aquele, mas para dar ênfase: “Já não é a mesma coisa!”. Pode ser um advérbio: “O que é mesmo (na verdade) mesmo?”. Ou até um substantivo: “Não quero nada de diferente, só um litro do mesmo!”.  Ou a conjunção “mesmo que” com Conjuntivo.
            Para terminar em grande, enlançando tantos mesmos mesmos num único ramo, atirei felicíssimo:
            - Na frase “o que é mesmo mesmo”, mesmo que não pareça, temos vários significados da palavra e nenhum deles é o mesmo.
            À minha frente, um conjunto de bravos e pacientes alunos desta tempestuosa língua viram o Bojador em toda a sua extensão. Até que um divertido polaco decidiu encerrar a situação:
            - Professor, esperamos que esteja mesmo a brincar. Ou estaremos mesmo lixados.

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