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Crôuvicas de Bruxelas: a rua que onda

Paul Delvaux, "La Rue du Tramway"
Sempre que nos encontramos, não sei quem percorre quem. A rua, tão alta de um chão inquieto, de portas que dão para montanhas, ruas velhas, igrejas inesperadas. Ou apenas chão.
Talvez seja porque esta cidade não tem rio - a primeira em que vivi sem água. Às vezes ouve-se o rugido da terra, uma coisa lenta e quase imperceptível. Talvez por isso também esta rua suba, ondeie, não se suspenda.
Um amigo belga dizia-me: mas sim, não vês tantas regiões em Bruxelas que se chamam "beek"? É a palavra flamenga para "rio". Diz-me ainda que esta zona era um tecido de pequenos rios navegáveis, comercialmente muito viva.
Não sei: nada de rios visíveis hoje, só no nome das estações e das comunas. Mas esta rua cruza tempos e relevo, levanta levemente o peso das casas, do asfalto, e com eles o chão dos meus pés. Não é uma ascensão: não há luz e oceano, como em Lisboa; ou demasiada alma, como em Berlim. Há apenas a sensação de que algo me transporta, e que o onde é a viagem. Descer uma rua verdadeiramente quando ela nos sobe.
É por esta rua que penso que Bruxelas é um rio.

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