Avançar para o conteúdo principal

Crôuvicas de Bruxelas: a rua que onda

Paul Delvaux, "La Rue du Tramway"
Sempre que nos encontramos, não sei quem percorre quem. A rua, tão alta de um chão inquieto, de portas que dão para montanhas, ruas velhas, igrejas inesperadas. Ou apenas chão.
Talvez seja porque esta cidade não tem rio - a primeira em que vivi sem água. Às vezes ouve-se o rugido da terra, uma coisa lenta e quase imperceptível. Talvez por isso também esta rua suba, ondeie, não se suspenda.
Um amigo belga dizia-me: mas sim, não vês tantas regiões em Bruxelas que se chamam "beek"? É a palavra flamenga para "rio". Diz-me ainda que esta zona era um tecido de pequenos rios navegáveis, comercialmente muito viva.
Não sei: nada de rios visíveis hoje, só no nome das estações e das comunas. Mas esta rua cruza tempos e relevo, levanta levemente o peso das casas, do asfalto, e com eles o chão dos meus pés. Não é uma ascensão: não há luz e oceano, como em Lisboa; ou demasiada alma, como em Berlim. Há apenas a sensação de que algo me transporta, e que o onde é a viagem. Descer uma rua verdadeiramente quando ela nos sobe.
É por esta rua que penso que Bruxelas é um rio.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…