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a energia de uma música, ressuscitada

No dia 30 de Dezembro, a mais célebre compositora americana, Carole King, foi homenageada no Centro Kennedy. Autora de dezenas de "covers", cantados por si mas ou também compostos para outros, como "So Far Away" de Rod Stewart, "You've got a friend", era uma homenagem justíssima.
Mas a surpresa ia desdobrar-se em muitas outras. Nesse dia, também para a homenagear, a septuagenária Aretha Franklin surge em palco para cantar uma das composições mais famosas de King, de que Aretha foi a voz: "You make me feel like a natural woman".
O video da performance, que pode ser visto acima, não é apenas um momento histórico porque a interpretação de Aretha é tremenda; porque o Presidente Obama se emociona; porque vemos voz e compositora unidas num fio de música que explode. É histórico porque as suas raizes alargam-se e renascem naquele momento.

Carole King, pelo simples facto de ser uma mulher compositora nos anos 60-70, continha já na sua acção uma energia e um manifesto feminista num meio masculino, mesmo que o não quisesse. Eram ainda os tempos em que uma mulher ter um trabalho para além de ser mãe já eram uma novidade e uma luta diária. Porém, a música que compôs para Aretha encerrava desde essa altura outra força: era a voz da Soul, de uma música associada aos afro-americanos, que ecoava séculos de exclusão, escravatura, racismo. Quando Aretha cantava, no final dos anos 60, que se sentia "like a natural woman", não falava apenas de ser amada, do amor a tornar mais mulher - e menos mulher de alguém; falava de ser uma mulher negra que se sentia bem na sua pele. E vê-la ao piano lembrou-me também Nina Simone, pianista de génio, que se tornou cantora de jazz porque as portas como pianista clássica se fecharam para uma mulher negra nos anos 50 nos Estados Unidos. Aretha, nesse gesto, celebrava toda uma geração. Sublinhadamente feminista, mesmo que Aretha não quisesse.

Isto não pode ser suficientemente celebrado. Mas agora ao ver duas mulheres de setenta anos, comovidas com o que ambas criam e alargam com esta música, comove até às "raizes do futuro". E no momento em que Aretha canta com toda a sua voz, décadas e séculos de exclusão e luta levantam-se, celebrados, frente ao primeiro presidente negro dos Estados Unidos. É uma explosão de liberdade, de luta cumprida, num século (e num ano) onde as liberdades individuais e comuns parecem ter regredido décadas.

Mas o que me comove ainda mais é o momento em que Aretha Franklin sai do piano, suavemente é ajudada a descer um degrau, e da fragilidade passa para a força: despe o seu casaco de peles, enquanto grita "a natural woman". O statement expande-se: são duas mulheres de setenta anos, que ainda - e ainda mais - são profunda e completamente mulheres. Que têm um corpo, uma voz, um desejo. E o sabem cantar, melhor que ninguém. A voz sobe, Aretha repete, "a woman, a woman". Não é uma glória do passado, uma homenagem com obrigadinha e esquecimento -  é uma mulher total. A voz a resgatar o corpo. A energia de uma música, ressuscitada, ressuscitante.

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