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ouro, incenso e mirra

É como uma caixa de chocolates, vinda exoticamente do estrangeiro, oferecida por alguém em viagem. Tenho memórias claras ainda daquele tempo em que se faziam pedidos a quem ia a Paris e Londres, porque havia tão pouca coisa em Portugal. E o tempo da espera, a raridade, a expectativa, tudo isso fazia desse estrangeiro mais entranhadamente desejado ainda. Lembro-me da sensação de sci-fi de quando o meu irmão foi a Londres nos seus 18 anos (1985!) e trouxe um walkman que fez o meu espanto total.

Pois esta caixa de chocolates foi laboriosamente feita por artesãos que conhecem não apenas bem do seu ofício, mas têm a paciência de comparar, provar, escolher o melhor chocolate. Trata-se da inigualável e extraordinária colecção "La Discothèque Idéale de Diapason".
A revista francesa de música clássica não apenas continua a resistir - e em glória - ao fim do CD, como tem desenvolvido uma estratégia muito bem pensada: a de fazer pequenas e baratas colecções de CDs, utilizando os seus imensos conhecimentos técnicos e a sua marca para escoar os seus produtos. Numa década - a pior - para as editoras de música clássica, a Diapason não apenas mantém um mercado, mas recria-se a si mesma.

Por trás desta colecção está uma ideia espantosa: sentar todos os críticos da revista, e convidar alguns célebres instrumentistas. Dar-lhes quarenta ou cinquenta ficheiros de uma mesma obra, sem indicar quem são os intérpretes. Chamam-lhe "écoute en aveugle" (escuta cega). E depois de várias escutas comparadas, cada um dos grupos (críticos e instrumentistas) escolhem uma versão. Há casos em que o consenso tão amplo gera mesmo a escolha de uma terceira versão. E assim temos uma dupla integral, compósita, de cada obra. Com o extra de novos e brilhantes textos por críticos e instrumentistas a justificar as suas escolhas, as gravações remasterizadas, bem organizadas numa caixinha bem desenhada e elegante - e tudo pelo módico preço de 20 €.

Este último junta todos os Concertos de Beethoven, as Aberturas, e as duas Missas e Fidelio. Alfred Brendel, Gidon Kremer e Paul Badura-Skoda estão entre os que escolhem, bem como outros nomes (ainda) menos conhecidos como Isabelle Faust ou Benjamin Grosvenor. Foco-me apenas nos Concertos, porque escreveria um romance se falasse do resto.
Para mim, que de tantas escutas e comparações fixei-me em algumas interpretações e lá regresso sempre - embora goste de ouvir outras versões, muitas vezes para verificar a minha escolha inicial! - esta caixa foi uma surpresa.

Concertos para Piano e Orquestra Nº1 e Nº2
A esperada escolha de Emil Guilels com Sanderling, saída de uma integral imensa, de que aqui escolhem este concerto, foi uma boa confirmação.
Mas a surpresa da escolha de uma velha de versão de Arthur Schnabel (o primeiro homem a gravar uma integral das sonatas de Beethoven), escolhida por um pianista de vinte anos. É uma versão cheia de swag - como sói dizer-se hoje em dia: frases elegantes, um estilo reviravoltante, um jogo de elegância e de expectativas crescentes.
No segundo concerto, a primeira escolha cai em Serkin com Ormandy. Não conhecia esta versão, mas também me recordo bem do meu pai, então estudante em Londres, me contar que foi com a minha mãe, tostões contados e saudades enormes, ouvir Serkin no Barbican. "Nunca ouvi um piano tão suave, como se quase não fosse possível tocar nele", ainda hoje me diz. O que é inacreditável é como Serkin consegue fazer o mesmo milagre neste concerto cheio de juventude e de demonstrações de bravura.
A segunda escolha cai na versão de Fleisher com Szell, que tinha ouvido pirateadamente e a correr numa viagem para o Alentejo. De Fleisher com Szell conheço o equilíbrio mágico do Concerto Nº25 de Mozart. Aqui esse balanço supremo de linhas claras, de planos inclinados para o céu, fica tão próxima da perfeição que é de perguntar se Beethoven não estava ao piano e na orquestra ao mesmo tempo.
Vem de prémio neste CD o Rondó para Piano e Orquestra com Richter e Sanderling, uma maravilha de humor que qualquer beethoveniano devia ter à mão para reaprender o seu Beethoven.

Concerto para Piano e Orquestra Nº3
Este objecto raro, onde Beethoven arrumou de vez com o Concerto clássico, é tão rigorosamente díficil de interpretar, que acho que aqui se separa o trigo do joio em termos de intérpretes de Beethoven. Exige uma mestria, uma noção de arquitetura, um equilíbrio perfeito com a orquestra. E um sentido narrativo, porque o Romantismo atravessa a obra como uma espécie de escolha inevitável.
Se a versão de Fleisher com Szell me espantou por todos os lados, como aconteceu com a do Concerto Nº2, admito que uma dose Romântica lhe faça falta. Que também não encontrei na versão de Brendel com Wallberg. Em meu entender falta a orquestra destemida de Toscanini, que acompanhou Hess e Rubinstein em duas versões que são inapagáveis.
Esta escolha é, portanto, o meu único senão.

Concerto para Piano e Orquestra Nº4
Duas escolhas soberbas: o clássico absoluto de Backaus e uma versão curiosa de Gieseking.
É difícil para mim esquecer a versão de Hansen com Furtwaengler, que não foi sequer aqui mencionada.

Concerto para Piano Nº5
A surpresa absoluta: a versão de Casadesus com Mitropoulos. Eu, viciado neste concerto, nunca ouvi algo tão preciso, aristocrático, mas vibrante, brilhante, a definição pura. Uma surpresa imparável, mais majestático que imperial, marcial na sua clareza. Escreverei em breve sobre este disco.
Junta-se ainda a inigualável versão, clássico absoluto, de Fischer com Furtwaengler.

O resto do romance oscila entre confirmações e surpresas. Mas é uma espécie de presente de Natal que nunca acaba, pois muitas versões impõem-se a uma terceira ou quarta escuta. Mas para já, esta caixa veio trazer toda a surpresa da novidade a algo que já se conhece tão bem. A primeira escuta, de novo. E esse é o prazer surpreendente e absolutamente novo de quem gosta de música clássica. Ouro, incenso e mirra, antes do Natal: isto trouxeram os reis estrangeiros da música.

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