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o inverno do meu renascimento

São oito da manhã de terça-feira, dia 8 de Dezembro. Os pássaros do Parc Léopold estão um pouco mais calmos hoje. Vejo o Parlamento Europeu ao fundo. Lama por todo o lado. Faz um frio que é frio mas não é frio, e tenho saudades de Berlim.
De repente os meus passeios no Lietsensee, coberto de neve, os passos a medirem-se. O lago gelado, e apenas dois ruídos: o dos corvos, únicos pássaros no mundo a cortar o gelo com a sua voz negra, e o dos meus passos na neve. O silêncio branco, fundo, absoluto da neve, por baixo, por cima, por dentro de todas estas coisas.
A memória de uma cidade imensa e inúmera como um leão de infindáveis cabeças, tornada um gato manso não ao sol mas à luz crua do gelo. De ruas e ruas, de Postamer Platz até casa, só neve, silêncio e mundo interior.
Recordo esse inverno de há dois anos, onde eu fui um só com a solidão, o frio, os meus fantasmas, e um romance que tomou conta de cada segundo do meu dia. Escrevi-o com neve, com gelo, com olhos novos cortados pelo frio. Recordo esse inverno onde, depois de 36 anos, percebi que tinha de sair de mim mesmo, tal como tinha de sair do país onde nasci. Neve alta e extensa, de Friedrichsain ao Viktoria Park, que me lavou por dentro dos olhos, precisamente entre o entendimento e o coração; e onde, magnificamente solitário, valendo o meu peso em gelo, renasci.

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