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Sobre a fauna dos museus

Uma chinesa aos berros ao telemóvel, e na outra mão uma câmara de filmar, registando tudo; passa agora para a máquina fotográfica. Voz e imagem, sem cérebro.
Um grupo de adolescentes tira selfies contra os quadros. Passa um rapaz moreno, talvez italiano, querem uma fotografia com ele, junto àquele "horrible painting". Outra fotografa "Os Embaixadores" de Holbein, pondo sobre o meio do quadro uma figura de Manga.
Um casal de brasileiros discute o preço das molduras, e como o chão da National Gallery deve ser limpo. Papai diz mesmo que isto deve ser madeira roubada do Brasil. "Isto é Inglaterra, não é Portugau". Uns tiravam aos outros, remata sorrindo.
Um rapaz não larga o seu whatsupp, e o seu Facebook diz sala após sala que ele aqui está. O mundo fica descansado e feliz. Canaletto e a sua vista do canal parecem mais transparentes e rasgadamente azuis com tão profunda informação.
Duas crianças rebolam-se no chão. Uma delas finge que liga para um amigo imaginário a partir do audioguia. Três raparigas de setenta dizem que não vêm mais com a Rose, ela acha que manda em tudo, e o museu não tem interesse nenhum.
Um trio hispano-falante fala mal do investimento cultural do seu governo central. Uma senhora americana pergunta alto à guarda se há uma reprodução em toalha de mesa, depois de ter sido apanhada a flashar um Zurbarán.
E o Slovan aperta a Slovana enquanto ela posta no Instagram "I love London".

Muitas vezes me pergunto porque é que estes quadros altos, inteligentes de sobrevivência centenária, não saem de si mesmos. E porque, numa ira sagrada de tinta e tempo, não caem sobre estes seres zeros?

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