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Jardins para o fim dos tempos: o 3º Concerto para Piano de Prokofiev

Porque umas coisas arrastam outras, lei marítima, progredimos. Nas redes atiradas à fome, surgem chaves de outros mares.
Assim foi com este terceiro Concerto para Piano e Orquestra de Prokofiev, versão Byron Janis/ Kyrill Kondrashin (Mercury), que comprei então pelo Concerto de Rachmaninov que partilhava o disco. Rapidamente o motivo se tornou secundário, e foi pela ferocidade de Prokofiev que eu e o disco nos continuámos indefinidamente a procurar.
O "Andante" com que o concerto abre estabelece desde logo o seu programa revolucionário: em vez de se iniciar com um "allegro" triunfante, cantante, ou quanto mesmo "ma non troppo", Prokofiev começa com uma espécie de adivinha soprada, irónica como a pergunta da esfinge, a que o piano responde, marcial, bruto, escalante, vertigista. É um jogo imenso de resposta, espelho melódico quebrando-se - onde se expande um equilíbrio que parece permanentemente improvisado. Vagas sonoras, montanhas, escalas: o piano sobe, ri-se, esmaga e voa. É um andante esfíngico, entre memória, ironia, pergunta e bruitismo, donde se sai num turbilhão. Esta música não pára de ser nova.

O "Tema con Variazoni", segundo andamento é um dos momentos em que o génio de Prokofiev mais rasga e fere. Foi na verdade a primeira parte a ser composta, em 1913, guardada, só tendo em 1921 terminado totalmente o concerto. O início ecoa o princípio do primeiro andamento, sopros abrindo o caminho. Mas há logo uma atmosfera irónica, que o piano repete, virtuoso, escalante, quase romântico. Mas uma mão atira a melodia à outra, como se modelasse barro, e rapidamente a incendeia. Rússias e estepes, Espanhas e montanhas, que o primeiro andamento vociferava, aqui são mais íngremes. Até que um tema pífio, entre canção de marinheiro bêbado e elefante na loja de porcelana, invade o andamento. Prokofiev sorri, dentre tanta História secreta, dos seus detratores soviéticos, do Partido Comunista da URSS que (mais tarde) diriam que ele não produzia música para o povo. Melodias populares pandeiretadas tocadas por uma orquestra de circo ou sono; água ardente; neve decepante. Enquanto destrói o andamento, o Piano parece por vezes chorar, risos de lágrimas gravadas na pedra.
As variações terminam, e com elas o andamento, como se o ouvinte tivesse apanhado boleia em Lisboa e saísse numa esquina de Marte.
Se o Concerto não fosse já uma fúria inventiva para piano, percussão e desconstrutor de romantismos epidérmicos, o terceiro andamento, "allegro ma non troppo", é rebelde, futurado, devastante.
É dialecticamente a síntese dos anteriores. Mas aqui há momentos memorativos quase dolorosos, com as cordas e os metais a conduzirem o piano para lugares onde se pode perder, perguntar pela sua identidade, revoltar-se de si mesmo. Revolto, porque é como um mar que fosse consciente, tão depressa onda, espelho, fundo ou céu. E rebentação. Num crescendo cortante, piano e orquestra, vão escalando melodias e limitações até explodirem num céu de som.

Não posso recomendar mais a versão Janis/ Kondrashin (Mercury), comum som decapante, gravado num momento histórico de reaproximação URSS/ EUA, em Moscovo em 1960. Todos os momentos são de uma concentração e de um excesso extremo. Uma outra versão, televisiva, com Janis ao piano pode ser vista aqui.
Em condições sonoras um pouco mais rugosas (mas que sublinham a violência da interpretação) a dupla William Kappell/ Antal Dorati. Kapell, um génio imenso desaparecido prematuramente, faz do concerto um jogo aos limites do piano. Beethoven, quando arrumou com o pianoforte na Sonata "Hammerklavier", haveria de ter gostado. A orquestra de Dorati, um organismo violento e futurista.
Terceira gravação imperdível: Martha Argerich novíssima com Claudio Abbado e os berlinenses num dia de fúria sagrada. Argerich é veloz, Abbado mais neutro que os seus antecessores mas brilhante acompanhador.
Por fim, a rapidez e clareza de Terence Judd têm de ser ouvidas. Judd venceu um prémio com este concerto, que ele toca como um cometa.
Duas últimas notas às integrais de Kun Woo Paik (com Wit, na Naxos), e a do violento, ácido Krainev (Erato). Ao preço de um almoço, alimentam alta e cortantemente.

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