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eu faço parte do mundo que não quer fechar ninguém

Bruxelas, 21-23 de Novembro. Cercado dentro da cidade. Sem saber quando o cerco deixa de ser. Não há ninguém a rodear a cidade; nenhum exército, nenhuma invasão.
O cerco não é exterior. Isso é tudo o que o cerco não é.
O cerco é por dentro. Uma ameaça dentro das avenidas, dos transportes, das ruas. Uma esquina transforma um ruído numa dúvida.
O cerco é nos olhos: porque de repente o outro pode ser inesperadamente "o outro", e todas as formas de olhar ficam também elas cercadas. Limitadas.
O cerco é interior, porque ao futuro largo, a inventar, se passa para o presente estreito, a sobreviver.

Uma ameaça que quer destruir por dentro. Fragmentar o dia, os actos, e depois nós mesmos.
Estamos cercados por dentro. Desce-se a rua, pensando a qualquer momento num tiro de ódio sem destino. Porquê, bato a porta, bato os pés no chão? Porquê, ecoa a cidade deserta? Eu faço parte do mundo que não quer fechar ninguém. Eu faço parte deste país que recebe todos com generosidade e sem acepção de pessoas. Esse tempo acabou, aprendi, leio, tento - e combato. Porque este tempo no mundo é também meu, e o meu dia contra o dia deles é já combate.

Eu faço parte do mundo que luta por não fechar ninguém. E isso começa por não me fechar no medo, por não aceitar que alguém queira fechar o mundo onde eu vivo. Por descer a rua.

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