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A Direita anda torta

Mesmo que Cavaco Silva continue a prolongar os seus poderes de Plastic Man, adiando a posse do governo que ele considerava urgente, deverá haver governo esta semana. E por isso, para terminar esta longa telenovela de dois meses, algumas notas para fixar comportamentos.

1. A Direita portuguesa deixou o centro-direita
Não teriam bastado já os quase 5 anos de governo PSD + PP, mais troikista que a troika, para o provar? A retórica de alguns ministros durante a campanha e neste interlúdio mostraram muito mais. Passos Coelho orante, a Ministra da Agricultura que segue modelos divinos, o Ministro da Admistração Interna que nos fala dos tempos de Deus. Tudo tão ajustadamente Antigo Testamento que vale a pena perguntar se não é do primeiro Governo de D. Maria I que estamos a falar.
Porém, a reacção ao acordo de esquerda revelou muito mais.

A Direita age perante a liberdade do acordo à esquerda com muita estranheza. Parece que a Direita pensa que a Democracia acontece a cada quatro anos, apenas para se formar uma maioria que transforme o Parlamento numa espécie de programa da manhã para o governo se crucificar para a nação - uma espécie de Passos da Cruz. Depois é ir lá fazer figura para as televisões, passar culpas, queixar-se de como é difícil limpar as burradas dos outros.
Parece, porque surge verdadeiramente assustada com a discussão de políticas passo a passo - a natureza do acordo à esquerda. Que é também a natureza de um Parlamento, eleito à imagem e em representação real do país. Mario Draghi já lhes respondeu que a Democracia é mais importante que os mercados.
Passos Coelho tem produzido afirmações interessantes sobre a austeridade não como escolha feita pelo seu governo, mas como imposição - isto para alguém que se gabava de ir mais longe que a troika. O que espantosamente isto revela é a aplicadíssima táctica "Luis XV" que foram as rédeas da acção do Governo no último ano: não tanto "depois de nós, o dilúvio", mas "sem nós, o dilúvio". Incrível incoerência, que os seus anos de governo exprimem por si mesmos.

2.Política para 4 anos?
Não se compreende o que pretendem para estes quatro anos. Porque - aliás - em boa verdade não tinham programa de governo. Passaram as eleições a discutir o programa do PS. Agora vem o momento em que é necessário responder a este programa, e só há gritaria, e acusações, e apocalipses em fascículos.
Não é preciso ser esperto para calcular que aparecerá um novo partido de centro. E que os efeitos da sacra união PSD + PP vão demorar a desfazer-se - tão colado à direita ficou o partido de Sá Carneiro.

3. "Não contem connosco"
Disseram os líderes da coligação ao líder do PS. Gostaria de saber se, por causa disso, a coligação vai passar a votar contra leis que impliquem a manutenção de Portugal no Euro, na UE, na Nato. É que se o PCP ou o BE dissessem: "Não contem connosco para votar leis pró-Nato", eu entenderia.
Com isto, PSD e PP puseram-se fora do seu arco político, abandonaram as suas próprias obrigações. Tornaram-se párias de si mesmos, partidos contra os seus próprios princípios. Agora compreendemos o verdadeiro sentido de "que se lixem as eleições."

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