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Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2015

Sobre a fauna dos museus

Uma chinesa aos berros ao telemóvel, e na outra mão uma câmara de filmar, registando tudo; passa agora para a máquina fotográfica. Voz e imagem, sem cérebro.
Um grupo de adolescentes tira selfies contra os quadros. Passa um rapaz moreno, talvez italiano, querem uma fotografia com ele, junto àquele "horrible painting". Outra fotografa "Os Embaixadores" de Holbein, pondo sobre o meio do quadro uma figura de Manga.
Um casal de brasileiros discute o preço das molduras, e como o chão da National Gallery deve ser limpo. Papai diz mesmo que isto deve ser madeira roubada do Brasil. "Isto é Inglaterra, não é Portugau". Uns tiravam aos outros, remata sorrindo.
Um rapaz não larga o seu whatsupp, e o seu Facebook diz sala após sala que ele aqui está. O mundo fica descansado e feliz. Canaletto e a sua vista do canal parecem mais transparentes e rasgadamente azuis com tão profunda informação.
Duas crianças rebolam-se no chão. Uma delas finge que liga para um amigo ima…

eu faço parte do mundo que não quer fechar ninguém

Bruxelas, 21-23 de Novembro. Cercado dentro da cidade. Sem saber quando o cerco deixa de ser. Não há ninguém a rodear a cidade; nenhum exército, nenhuma invasão.
O cerco não é exterior. Isso é tudo o que o cerco não é.
O cerco é por dentro. Uma ameaça dentro das avenidas, dos transportes, das ruas. Uma esquina transforma um ruído numa dúvida.
O cerco é nos olhos: porque de repente o outro pode ser inesperadamente "o outro", e todas as formas de olhar ficam também elas cercadas. Limitadas.
O cerco é interior, porque ao futuro largo, a inventar, se passa para o presente estreito, a sobreviver.

Uma ameaça que quer destruir por dentro. Fragmentar o dia, os actos, e depois nós mesmos.
Estamos cercados por dentro. Desce-se a rua, pensando a qualquer momento num tiro de ódio sem destino. Porquê, bato a porta, bato os pés no chão? Porquê, ecoa a cidade deserta? Eu faço parte do mundo que não quer fechar ninguém. Eu faço parte deste país que recebe todos com generosidade e sem acepç…

A Direita anda torta

Mesmo que Cavaco Silva continue a prolongar os seus poderes de Plastic Man, adiando a posse do governo que ele considerava urgente, deverá haver governo esta semana. E por isso, para terminar esta longa telenovela de dois meses, algumas notas para fixar comportamentos.

1. A Direita portuguesa deixou o centro-direita
Não teriam bastado já os quase 5 anos de governo PSD + PP, mais troikista que a troika, para o provar? A retórica de alguns ministros durante a campanha e neste interlúdio mostraram muito mais. Passos Coelho orante, a Ministra da Agricultura que segue modelos divinos, o Ministro da Admistração Interna que nos fala dos tempos de Deus. Tudo tão ajustadamente Antigo Testamento que vale a pena perguntar se não é do primeiro Governo de D. Maria I que estamos a falar.
Porém, a reacção ao acordo de esquerda revelou muito mais.

A Direita age perante a liberdade do acordo à esquerda com muita estranheza. Parece que a Direita pensa que a Democracia acontece a cada quatro…

Europe by Train: was ist das?

Diálogos Pintados, X: Arthur Streeton, "Blue Pacific", para quadro e memória

Reparei nele porque se sentava nos bancos como eu. De lado, e ia rodando ao longo do assento para poder ver toda a sala. O cabelo era absolutamente branco. A mochila verde dava-lhe um ar de adolescente. E o quadro que via concentrava todas as cores da sala e do Universo recomeçado num dia de Verão: Blue Pacific. Notei depois que não se mexia. E que limpava os olhos. Porque chorava? Para onde o quadro o tinha transportado? Pensei numa infância pobre numa arriba do Sul, cortado pela pobreza dos avós ou dos pais, para uma vida longe.
Passei diante, para ver se o quadro me contava mais da sua história. Os azuis, belos de terríveis. Depois à direita, no corte das falésias. Não consegui ver mais o rosto. Levantou-se e foi, surpreso da própria emoção. Só ficou o quadro. Onde um pequeno barco verde, enterrado na areia, para sempre não navega mais.

Re-ciclar a Democracia Portuguesa

Pensei que nunca iria ver isto no meu tempo de vida.
A minha comoção não é apenas por ver, por uma vez, a minha área política unida. É sobretudo por compreender que Portugal está a combater um deficit de cultura democrática, uma incapacidade de discussão; que está a limpar velhos hábitos que ficaram de controlo da igreja, do despotismo iluminado, do estado novo, que confundem debater com agredir, discordar com combater.
Quem segue a vida política europeia sabe que este tipo de acordos são legião na Europa. Aqui mesmo na Bélgica são a regra política, com coligações de pelo menos quatro partidos. A maioria não tem maioria. É melhor um Governo ou a ausência dele?

Escrevi aqui, precisamente há um mês e logo depois das eleições, que se iria abrir um ciclo novo, que se fecharia um outro que tinha começado em 1975. Na verdade, em dois sentidos: não apenas com um novo "arco de governação" mas o que ele implica: a criação de um novo modelo de desenvolvimento - que naturalmente Brux…

Diálogos Pintados, IX: Gentileschi: David contemplating the Head of Goliath

E Gentileschi inventou o azul. Pediu-o a Deus, que o guardara no Egipto, depois de pragas e devastações. E com pedra pintou a cabeça de Golias; e com carne em glória de sol pintou o eleito que escolheu para ser rei de um reino de errantes.
Nunca a cor, a pedra e a carne sangraram tão alto. Nunca a madeira, a tela, a pedra e a tinta se abraçaram tão longamente para além do tempo.
Um céu de pedra e por isso de água uma espada de metal e por isso terra; e um vento de cores disparando o ar.
Movendo-se na música sangue de cada elemento, Deus reinventou a Terra com a sua mão direita.

Jardins para o fim dos tempos: o 3º Concerto para Piano de Prokofiev

Porque umas coisas arrastam outras, lei marítima, progredimos. Nas redes atiradas à fome, surgem chaves de outros mares. Assim foi com este terceiro Concerto para Piano e Orquestra de Prokofiev, versão Byron Janis/ Kyrill Kondrashin (Mercury), que comprei então pelo Concerto de Rachmaninov que partilhava o disco. Rapidamente o motivo se tornou secundário, e foi pela ferocidade de Prokofiev que eu e o disco nos continuámos indefinidamente a procurar. O "Andante" com que o concerto abre estabelece desde logo o seu programa revolucionário: em vez de se iniciar com um "allegro" triunfante, cantante, ou quanto mesmo "ma non troppo", Prokofiev começa com uma espécie de adivinha soprada, irónica como a pergunta da esfinge, a que o piano responde, marcial, bruto, escalante, vertigista. É um jogo imenso de resposta, espelho melódico quebrando-se - onde se expande um equilíbrio que parece permanentemente improvisado. Vagas sonoras, montanhas, escalas: o piano sobe…

Diálogos Pintados, VIII: Bellini, Doge Leonardo Loredan

Não é claro quem vence: se a riqueza se a transparência. Há um azul intemporal a alargar a luz sereníssima do rosto. Olha-nos como quem ouve a morte bem perto do futuro, e está seguro das contas que ambos têm de acertar. O azul ainda e o rosto tranquilo são quase mármore, não na forma mas na duração. E o damasco das vestes prolonga-o e reflecte-o, a riqueza que leva da vida e deixa depois da morte, como uma missão cumprida.
Muito antes da fotografia, esta arte de luz olha-me do século XV como uma vida eterna: daqueles que aceitam as suas vidas e nelas caminham na transparência, prolongando luz mesmo depois de não serem carne - apenas matéria solar.