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Três rabiscos sobre as eleições

Não tenho dúvidas que, vistas daqui a uns anos, estas eleições serão vistas como tendo terminado um ciclo que começou em 1975.
Antes de mais, porque o modelo de desenvolvimento que PSD e PS impuseram revelou-se insuficiente ou até falhado com a chegada da troika. O país continua sem olhar para a sua história, para a sua geografia, para as marcas da sua presença activa no mundo de hoje, e sem compreender que as suas fontes de desenvolvimento e de riqueza são o mar, a cultura e a língua.
O momento de diálogo que as eleições impuseram levará a um parlamento bloqueado seguido de outro, se isto não for claro. Um voto de protesto - ou de viragem à esquerda - de 20%, somado a quase 10% de votos em partidos que não elegeram representação parlamentar (e ainda juntando brancos e nulos): 30% do país votante não se revê nestas políticas e não o pretende. Ou há uma mudança de política ou as próximas eleições mostrarão o mesmo. É que mudança de política não se trata dos tacticismos técnicos que as mesas de diálogo estão a tentar começar: trata-se de repensar todo o modelo de desenvolvimento do país, abrir o diálogo aos cidadãos, aprofundar as medidas comparando-as com os erros do passado. Um dos mais velhos países do mundo e o que mais crassamente ignora a sua História.

Para além deste primeiro rabisco, gostaria de apontar outros dois, forçosamente mais curtos. Os resultados: PSD, PS e CDS ficaram reduzidos ao seu valor básico, àquilo que vale o seu eleitorado mais fiel. Se na coligação se compreende, Costa ficou reduzido a um resultado "martim moniz", entre a esquerda do centro e o centro da esquerda, enquanto BE cavalgou alegre a ala esquerda e a coligação do outro lado. Não entendeu que todos os partidos socialistas têm de abandonar a treta da "terceira via", a mais directa responsável pelo nascimento da austeridade como política da direita. Desenvolverei este tema no prometido texto sobre The Establishment de Owen Jones.

Terceiro e último: se Cavaco conseguir desenhar uma política de acordos, terá feito a única coisa útil do seu nefasto mandato. Mesmo que o governo dure 2 anos, a estabilidade de políticas desenhadas em conjunto fará a diferença. E é claro que teremos um primeiro-ministro que não será nem Passos nem Costa. Ambos têm a ganhar em deixar uma terceira pessoa arrumar a casa e ser responsável por um governo de acordo e que tem tudo para ter sucesso. Rui Rio e Manuela Ferreira Leite serão os mais que prováveis primeiro-ministros de um governo de acordo. Isto se Costa não tiver coragem para um governo à esquerda.

Eleições que marcam o fim de um ciclo, dizia eu: a legislatura passada foi a única em que um governo de coligação governou sem interrupções. Estas eleições marcarão o fim das maiorias absolutas de um só partido. Os seis ou sete partidos que teremos no Parlamento são outra marca disso.

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