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Diálogos Pintados VII: Retrato de Filipe II de Espanha

Não esperava ver-te por cá. Mas até faz sentido: no maior museu de retratos do mundo, tinha de haver um retrato do perfeito filho da puta.
Estás bem, como sempre. O queixo de Habsburgo menos evidente pela armadura extraordinária. As duas únicas coisas que vocês, Habsburgo, conseguiram fazer bem: armar-se e queixar-se. Ah, e foder, mas só países. O meu (ou melhor, aquele em que nasci) nunca mais recuperou.
E logo quando voltava ao meu museu preferido, feliz de aqui estar, ofuscado pelo retrato espantoso de Southampton, pela inteligência política dos retratos de Elisabeth I, dou de olhos em ti. Como um cagalhão inesperado no último passeio mesmo antes de chegar ao céu.
E agora não te consigo tirar: cheiras a genocídio por milénios fora: mouros, índios, livres-pensadores, protestantes: de Granada à América, passando pela Flandres, por mais terços que rezasses e terços que lançasses, as tuas marcas de assassino não se apagarão. Uma bosta persistente como invencível armado.

Nota: pelos motivos evidentes, recuso-me à poluição da imagem de tal pessoa neste blogue. Podem achar o seu focinho aqui referido neste link).

Comentários

Júlia Pacheco disse…
Muito bem retratado pela sua pena!

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