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96 anos de Natércia Freire

Nos 96 anos de Natércia Freire, partilho um excerto de um livro seu, ainda inédito, O Eixo de Ouro.

"É tão irreal e duvidosa a realidade de cada um de nós, que nestas tardes de Verão recente e sol fugidio uma sensação de vida suspensa e superficial parece conduzir-nos, alheios e leves, entre as árvores das avenidas que o vento agita, por sobre corpos, veículos e jardins, enquanto o tempo se entretém a misturar as horas. Tanto pode ser tarde como manhã, aurora ou entardecer. Tanto poderemos estar vigilantes como em sonho. Uma súbita claridade ilumina e simultaneamente, varre a nossa imaginação: vivemos ou sonhamos?
 Na verdade, quantos momentos, autenticamente profundos, sofreremos nós nas vinte e quatro horas do dia? A fuga vertiginosa dos minutos é muito mais rasgada em trilhos de epiderme do que em palpitações de aguda descoberta. Escoa-se a vida, à maioria dos homens, por entre vales de amortecidos ecos…
É por isso que, para muitos de nós, mesmo as distâncias de séculos são inexistentes. Pela força da imaginação transpomos todas as barreiras e nos achamos a viver com os nossos irmãos antigos, entre uma Idade Média colorida ou uma Grécia de mármore; voamos continentes e oceanos e misturamos as lendas inverosímeis com as verosímeis histórias dos povos. Porque somos coisas levadas pelos ventos do Céu, e três minutos no Céu têm a duração de trezentos anos na Terra… Quando nos desprendemos das nossas realidades entramos num país intemporal, sem limites e sem medidas…"
 

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O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

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