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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2015

96 anos de Natércia Freire

Nos 96 anos de Natércia Freire, partilho um excerto de um livro seu, ainda inédito, O Eixo de Ouro.

"É tão irreal e duvidosa a realidade de cada um de nós, que nestas tardes de Verão recente e sol fugidio uma sensação de vida suspensa e superficial parece conduzir-nos, alheios e leves, entre as árvores das avenidas que o vento agita, por sobre corpos, veículos e jardins, enquanto o tempo se entretém a misturar as horas. Tanto pode ser tarde como manhã, aurora ou entardecer. Tanto poderemos estar vigilantes como em sonho. Uma súbita claridade ilumina e simultaneamente, varre a nossa imaginação: vivemos ou sonhamos?
Na verdade, quantos momentos, autenticamente profundos, sofreremos nós nas vinte e quatro horas do dia? A fuga vertiginosa dos minutos é muito mais rasgada em trilhos de epiderme do que em palpitações de aguda descoberta. Escoa-se a vida, à maioria dos homens, por entre vales de amortecidos ecos… É por isso que, para muitos de nós, mesmo as distâncias de séculos são inexi…

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, XXII

Como um sol que nasceu no sítio errado. Uma ideia que arde como uma ferida. Uma chamada que o tempo não deixa atender. Sei de onde vens mas eu nunca fui o teu tempo. Não fazes sentido hoje, como 40 graus em Dezembro. Neve de Agosto, agarras-te ao futuro como se fosses um passado possível. Lugar nenhum, volta para onde foste - e para onde alguém queira que tu sejas.

Diálogos Pintados, VII. Francisco de Zurbarán: Cup of Water and a Rose on a Silver Plate

De como Zurbarán percebeu que os objectos são a realidade.
A História é também e tanto a das redes de significado que os objecto criam e mantém. Aprendi isso com Inácio de Loyola, aprendi isso com Stephen Greenblatt, aprendi isso com poemas e quadros.
Mas este quadro é também o espelho de milhares de coisas: um copo de água trazido directamente da Primavera plena. Ou um prato de prata a mostrar as riquezas da natureza e da água. Uma alegoria ao jejum. Ou a Virgem Maria: a pureza da água e a rosa mística.
Em tudo Zurbarán o compreendeu: os objectos são o real. Tudo isto dentro do século XVII onde a humanidade se conheceu a si mesma.

Jardins para o fim dos Tempos: o primeiro Concerto para Piano de Prokofiev

A Primavera eterna, a chegar em ondas luminosas do passado e do futuro; o movimento mecânico mas perpétuo de tudo isto; e o ruído tecnológico do futuro, luz em viagem. Tudo isto ouvi e ouço no primeiro Concerto para Piano de Prokofiev.
Aos sopros de luz do primeiro andamento, futuristas ao mesmo tempo que compreendem a essência do romantismo, segue-se um interlúdio. Rápido e depois sombrio, como se se mergulhasse no estudo do próprio movimento. Quinze minutos onde a magia e a rapidez do Universo vibram.

Ouvi este concerto pela primeira vez na interpretação de Andrei Gavrilov com Simon Rattle (EMI), na colecção "Great Pianists" (alguma vez houve outra colecção assim? quando a reeditarão?). Nunca mais o esqueci: era como um elemento único, uma espécie extraordinária de água ou de fogo; um metal cortante que faria uma civilização vencer outra, um cometa que reinventasse o ar.

Para além da versão de Gavrilov, vibrante, a de Martha Argerich com Rabinovich (aqui). Argerich tem t…

Diálogos Pintados VII: Retrato de Filipe II de Espanha

Não esperava ver-te por cá. Mas até faz sentido: no maior museu de retratos do mundo, tinha de haver um retrato do perfeito filho da puta.
Estás bem, como sempre. O queixo de Habsburgo menos evidente pela armadura extraordinária. As duas únicas coisas que vocês, Habsburgo, conseguiram fazer bem: armar-se e queixar-se. Ah, e foder, mas só países. O meu (ou melhor, aquele em que nasci) nunca mais recuperou.
E logo quando voltava ao meu museu preferido, feliz de aqui estar, ofuscado pelo retrato espantoso de Southampton, pela inteligência política dos retratos de Elisabeth I, dou de olhos em ti. Como um cagalhão inesperado no último passeio mesmo antes de chegar ao céu.
E agora não te consigo tirar: cheiras a genocídio por milénios fora: mouros, índios, livres-pensadores, protestantes: de Granada à América, passando pela Flandres, por mais terços que rezasses e terços que lançasses, as tuas marcas de assassino não se apagarão. Uma bosta persistente como invencível armado.

Nota: pelos mo…

Três rabiscos sobre as eleições

Não tenho dúvidas que, vistas daqui a uns anos, estas eleições serão vistas como tendo terminado um ciclo que começou em 1975.
Antes de mais, porque o modelo de desenvolvimento que PSD e PS impuseram revelou-se insuficiente ou até falhado com a chegada da troika. O país continua sem olhar para a sua história, para a sua geografia, para as marcas da sua presença activa no mundo de hoje, e sem compreender que as suas fontes de desenvolvimento e de riqueza são o mar, a cultura e a língua.
O momento de diálogo que as eleições impuseram levará a um parlamento bloqueado seguido de outro, se isto não for claro. Um voto de protesto - ou de viragem à esquerda - de 20%, somado a quase 10% de votos em partidos que não elegeram representação parlamentar (e ainda juntando brancos e nulos): 30% do país votante não se revê nestas políticas e não o pretende. Ou há uma mudança de política ou as próximas eleições mostrarão o mesmo. É que mudança de política não se trata dos tacticismos técnicos que as…

Crónicas de Berlinzâncio: encontro numa página sem língua

Sento-me no Domingo mais manhã, no U7 entre Rathaus Neukölln e Adenauerplatz, como tantas vezes antes. A manhã é de um largo Julho ainda desprometido. Gente de todos os lados para todos os lados, como em nenhuma cidade tão vária e tão de aqui.
Sento-me e escrevo. É uma forma de andar, de ver.
À minha frente senta-se um casal. Ele de barba grisalha e olhos azuis, ela de cabelo escorrido e calças às flores. Um odor a sapatos usados e uma expressão de fome desordenada. Sacos azuis, dois, um telemóvel velho. Noto que me olham. Ao levantar os olhos para ver onde estou (perco-me sempre no U7, e é sempre em Bayerischer Platz de afectiva má memória), e o homem olha-me e pergunta-me:
- Was schreibst Du? Turkisch?
Não oiço ("A Arte da Fuga" nos ouvidos), e ele volta a perguntar fazendo que escreve, quando desimpeço um ouvido. 
Aceno que não e volto a pôr o auscultador, Bach por Marriner. Mas digo para mim: "Estou em Berlim. Já me esqueci que as histórias aqui não páram de me pr…

Diálogos Pintados VI: Caça tardia

É sempre a mesma coisa. Os patrões chegam-me a casa tarde e querem jantar para seis. Chegam de malas e bagagens cheias e de estômagos vazios, tudo para ontem. Tenho de me arranjar numa hora e não sei como. Vêm da beira-mar esfomeados e é só "Mélina" para aqui e para lá, usam-me o nome como pão para a boca. Jantar para seis, cinco patos! Como é que eu vou encontrar isto a esta hora?
Claro: tenho de ir ao Jean. Ele gosta que os patrões voltem tarde. Já está sozinho no mercado, a fumar cachimbo e a olhar para o fim do dia. Lá chego, deita-me uns olhos de chumbo doce, e vende-me a caça que não conseguiu despachar de manhã. Mais cara, claro. Os patrões são ricos, não é esse o problema. É o que ele quer depois. Da última vez disse que me fazia um abatimento se lhe desse um beijo. O abatimento não era para mim, disse, os patrões é que ganham com isso. Só se me tirasse as penas aos patos. Lá me fez o jeito mas custou-me um beijo. O que é que ele me vai pedir hoje? Que eu me depene?

Não quero um futuro retrocedido: Os vendedores vendidos