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o sentido de um rio/ vinte anos

Há vinte anos, fugimos um para dentro do outro.
Hoje, não sei o que fazer deste dia, desta data. Durante vinte anos celebrei-a. Vi erguerem-se anos como uma escada de sentido sobre os alicerces fecundos deste dia. Como alguém que compreende o sentido de um rio. Hoje, não a entendo. 
Atravesso a rua Béliard num trânsito fumegante. Começa a chover. A bicicleta faz barulho, qualquer coisa bate perto dos pés. Caem peças. Páro, tento perceber. É uma bátega de água, o semáforo abre, imprecações em várias línguas. Naquele minuto, a Sonata "A Kreutzer": oiço-a tocar em cada um dos elementos daquele momento. Atiro-me para o passeio, mas os restos da manifestação de ontem fazem-me escorregar. Olho para a bicicleta: perdeu a protecção da corrente. Já estava atada com fios, mas perdeu os últimos parafusos. É uma coisa sem sentido nem destino, um pedaço de plástico na engrenagem, que não me deixa andar nem me deixa parar. Sujo as mãos, puxo, ligo, invento. Não consigo nada. Puxo a protecção, não sai. Não posso andar nem posso sequer puxá-la até casa. Chove-me nos óculos, não consigo ver. Fecho os olhos, deixo a Sonata "A Kreutzer" tocar: Beethoven compô-la para cantar momentos como este.
A minha vida é uma bicicleta em segunda mão, tento sorrir enquanto a atiro para um parque de bicicletas. Vinte anos. Bruxelas é um parque de bicicletas sem sentido. Como esta data, com a qual não sei o que fazer.  Escorre-me das mãos. 
Há vinte anos fugimos para dentro um do outro e não foi de bicicleta. Eu tinha dezoito anos e queria esconder-me dentro da eternidade. Tudo o que eu tinha, era, seria, poderia ser, poderia tornar-se num recurso infinito para o Criador de tudo. Eu queria ser útil em toda a extensão da minha vida. Mas seria isso a minha vida, ou uma forma idealizada dela mesma? Os alicerces de mim, porém, construí-os lá. Tinha dezoito anos, foi há vinte anos que deixei tudo e quis ser um só com Deus.
Volto para casa, um resto de óleo nas mãos todas, sem bicicleta, molhado e gasto. Bruxelas chove-se a si mesma. Não sei como vou conseguir fazer tudo o que tenho de fazer sem bicicleta. Não sei como vou atravessar esta data. Pela primeira vez não a entendo. Escorre-me das mãos, desmantela-se. Deixo-a ficar. Deixo a Sonata "A Kreutzer" perguntar todo o sentido deste dia.
Volto para casa. E vendo vinte anos de nuvens pela janela combaterem-se de sentido, fecho os olhos. Vou para dentro de Deus outra vez, e consolo-o. Criar vida não deve ser fácil.



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