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Cronparisões, I: O jongleur

Tão depressa armas, tão depressa estrelas. E os braços que as transformavam.

À volta, arcadas, ferro e luz. "É um espaço onde rappers, dançarinos e malabaristas vê, treinar gratuitamente - explicava-me o T., andando pela nave branca e alta do 104, espaço artístico do 19eme. em Paris. Nunca vi um espaço assim, onde diversidade e integração fossem uma coisa só: cultura.
O chão e as paredes eram cores e movimentos. Dezenas de dançarinos. Cada um treinava e era visto e ajudado pelos outros, numa dança múltipla. Em baixo, um labirinto de papel, à esquerda uma livraria. Uma floresta.

Mas eu não me esquecia das estrelas e armas, e de um único ser humano que as fazia céu e chão de um golpe só. Os malabares brancos, o fato negro. Era uma peça de roupa sem tempo, cortada em "v" no peito, larga nas calças como um funâmbulo, a perna direita subida como um calção, a esquerda até aos pés. Os malabares subiam, dois, depois três, e voltavam à sua condição de chão através daqueles braços nem fortes nem largos, mas a própria essência de um braço. E ele, que não era estátua, mas o ponto onde a pedra começa a carne, atirava o impossível ao mundo.

Saímos do 104, eu compreendendo a obsessão dos modernistas com a figura do jongleur de estrelas:
 "O jongleur de estrelas tem os olhos fixos,
Mas em todo o corpo nervos dinamistas."


Mas numa luz de fim de dia sob a Pont de Crimée, eu pensava como magia, corpo e religião são estrelas e armas.
Não tinham corrido 15 minutos quando ele passa por mim, todo vestido de branco, em cima de um skate. Sorriu-me. E vimo-lo afastar-se, como a mochila azulíssima e enorme carregada de estrelas.

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