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Crónicas de Berlinzâncio: dois muros



Bernauer Strasse, Memorial do Muro de Berlim, 17-7-15. À minha frente as fotografias dos vítimas directas do muro. Os que procuraram fugir quando o seu chão se tornou muro, a sua casa prisão. Fugiram debaixo da terra ou saltando pelas suas janelas – subitamente transformadas no seu contrário. Em muros, em fronteiras.
A poucos metros daqui, a chanceler Merkel leva ao Parlamento a votação do pacote de apoio à Grécia. Isto quando uma maioria de cada um dos dois partidos da coligação está claramente contra o plano e preferia um Grexit qualquer – mas não o vai fazer.
“Fomos comprados”, dizia-me um amigo da antiga Alemanha de Leste quando contava o que lhes aconteceu depois da Reunificação Alemã. Tudo acabou de um dia para o outro e foi como se fosse entre um favor e uma salvação. “Ficámos para sempre alemães de segunda, e não sei quantas gerações vão ser precisas para isso desaparecer”. Quebra-se o muro, recomeça-se a vida. Solidariedade com o Leste, desde a reunificação: “fomos comprados, agora somos nada”, termina ele. Centenas de artistas da RDA que foram esquecidos, ou a desigualdade de pagamento dos funcionários públicos dos dois lados são apenas pequenos exemplos.
Uma chanceler que viveu emparedada no Leste. E que agora se apresenta a defender este pacote. Um pacote de ajuda que humilha a Grécia, força os Gregos a irem contra o que lutaram, votaram, e a serem forçados a ser cortados e desapossados – e assinar por baixo como se isto fosse solidariedade.
Vejo as fotografias dos que foram mortos pelo Muro. Estão diante de mim, emolduradas em aço escovado. Gente tira fotografias junto deles e do resto do muro, sorrindo. É tão dramático que passa pelo ridículo tão depressa que volta a ser dramático.
Passam Mercedes e até um Porsche pela rua. Noto que atrás do Memorial do Muro há outro condomínio de luxo. Os mortos do muro não acabam por morrer. Ao lado, no Parlamento com uma cúpula transparente, novos muros em nome da solidariedade e da protecção da europa são erguidos.

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