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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2015

Cronparisões, I: O jongleur

Tão depressa armas, tão depressa estrelas. E os braços que as transformavam.

À volta, arcadas, ferro e luz. "É um espaço onde rappers, dançarinos e malabaristas vê, treinar gratuitamente - explicava-me o T., andando pela nave branca e alta do 104, espaço artístico do 19eme. em Paris. Nunca vi um espaço assim, onde diversidade e integração fossem uma coisa só: cultura.
O chão e as paredes eram cores e movimentos. Dezenas de dançarinos. Cada um treinava e era visto e ajudado pelos outros, numa dança múltipla. Em baixo, um labirinto de papel, à esquerda uma livraria. Uma floresta.

Mas eu não me esquecia das estrelas e armas, e de um único ser humano que as fazia céu e chão de um golpe só. Os malabares brancos, o fato negro. Era uma peça de roupa sem tempo, cortada em "v" no peito, larga nas calças como um funâmbulo, a perna direita subida como um calção, a esquerda até aos pés. Os malabares subiam, dois, depois três, e voltavam à sua condição de chão através daqueles braç…

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, XXI

A janela que estava em cima da palavra significado: essa mesmo, à direita de quem sobe. Partiu-se. Não foi o vidro, que em boa verdade já estava quebrado há dois ou três meses. Foi o puxador. O que uma janela deve sofrer, cada vez que a abro: puxo-lhe pela dor.
Não podem vir trocá-la tão cedo. Dizem-me educadamente que há que lhes fazer todas as medidas, e vir tecnicamente verificá-las. Têm muito trabalho por causa da chegada imprevista do Outono, tempestades e afins. Que tenha paciência, que uma janela que dê para fora é sempre um tormento; e ainda mais nessa posição significativa...
é complicado de trocar. Agradeço à voz paciente do outro lado do telefone, mas não é significativa, é significante. Não posso viver com uma janela fechada para o significado. "Il faut être patient, monsieur". É isto a crise do significado?

Crónicas de Berlinzâncio: dois muros

Diálogos Pintados, V: A Queda de Ícaro, de Brueghel

Crôuvicas de Bruxelas: regresso em estreito Agosto

Regresso de onde o Passado teceu os seus fios. Se volto é porque não quero ficar neles, mas ser a sua vida e a sua libertação: puxar até ao mais longe do Passado para que o Futuro se expanda e cumpra.
Penso sempre que regressar é como deixar uma aldeia mais velha que a língua e o sangue, onde como nos quadros de Brueghel as colheitas serão lavradas, os animais tratados, a chuva ameaçará. Tudo isto sem que eu faça falta - mas seja lembrado como um eco longo, fundo e grande. Como uma montanha a que falta o nome.
Por isso, quando me pergunto onde dói o regresso, entendo velhamente que me arde no Futuro.

Hatherliana: empurrar a ressurreição

o sentido de um rio/ vinte anos

Há vinte anos, fugimos um para dentro do outro.
Hoje, não sei o que fazer deste dia, desta data. Durante vinte anos celebrei-a. Vi erguerem-se anos como uma escada de sentido sobre os alicerces fecundos deste dia. Como alguém que compreende o sentido de um rio. Hoje, não a entendo.  Atravesso a rua Béliard num trânsito fumegante. Começa a chover. A bicicleta faz barulho, qualquer coisa bate perto dos pés. Caem peças. Páro, tento perceber. É uma bátega de água, o semáforo abre, imprecações em várias línguas. Naquele minuto, a Sonata "A Kreutzer": oiço-a tocar em cada um dos elementos daquele momento. Atiro-me para o passeio, mas os restos da manifestação de ontem fazem-me escorregar. Olho para a bicicleta: perdeu a protecção da corrente. Já estava atada com fios, mas perdeu os últimos parafusos. É uma coisa sem sentido nem destino, um pedaço de plástico na engrenagem, que não me deixa andar nem me deixa parar. Sujo as mãos, puxo, ligo, invento. Não consigo nada. Puxo a protec…

Diálogos Pintados, IV: Portrait du Chevalier Abel van Coulster, de Jan Mostaert