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O tempo passado contém o futuro

A derrota do Labour nas eleições parlamentares britânicas deste ano parecia votada a outra derrota: a de uma incapacidade de regenerar o partido. Os primeiros candidatos a candidatos mantinham a mesma postura: um centro desmoderadamente pró-austeridade, um Labour descaracterizado, herdado de Tony Blair e do seu "New Labour".
Aconteceu que acompanhei essa derrota lendo um dos mais perturbadores ensaios que li nos últimos tempos: The Establishment, de Owen Jones. Num estilo conversado mas muito sustentado em análise histórica, política, em entrevistas aos intervenientes, e sobretudo numa análise fundamentada, Jones responde à pergunta que todos nós já nos teremos feito: mas donde raio veio a "austeridade"? O simples facto de termos de fazer a pergunta mostra como quem imaginou, preparou e instalou a ideia nas democracias ocidentais o fez muitíssimo bem.
Deixemos Portugal, Espanha e Grécia à parte, e se virmos os casos dos países nórdicos, da Grã-Bretanha, da Alemanha e até de França, a evidência é gritante: o Estado-Providência não dava prejuízo (se se pode falar em prejuízo quando se fala no bem de todos, coisa que parece que todos os políticos esqueceram). A crise não aconteceu por causa do Estado-Providência, como nos querem fazer crer; o Capital de Piketty, entre outros estudos recentes, revela-o claramente. A crise começou como o fim de um sistema piramidal, uma dona Branca criada nos Estados Unidos, crescida no Reino Unido, e apoiada pelo sistema financeirista que domina o mundo.
O que faz Owen Jones é mostrar o percurso dessa ideia até à sua realização. Ao ponto em que estava acabada e efectivada: quando, numa reunião com Thatcher dez anos depois da sua saída como primeira-ministra, ela afirmou, feliz: "a minha maior conquista é o New Labour". A austeridade colonizou o Labour.

A história do Labour britânico mistura-se com tantas conquistas da nossa vida quotidiana que seria impossível detalhá-lo sem escrever um livro. O facto de os meus sobrinhos menores poderem ir à escola deve-se ao Labour, que combateu o "free market" (sim, era assim que se chamava) de poder contratar crianças sem condições para as fábricas; o facto de a maioria dos leitores estar a ler este "post" em férias laborais, e ainda mais, pagas. O puro exemplo de ser Domingo e eu estar protegido por uma pausa, que apesar de ser num dia santo não é pausa laboral por isso.
Voltarei ao livro de Jones noutro post. Por ora, a tristeza de então ter percebido que não haveria um candidato das raízes do Labour para ao menos discutir o que era aquele partido hoje - quando o SNP (Scottish National Party) lhe roubou a Escócia e a defesa do Estado Providência, e os Blairites têm um discurso oco perante o furacão Conservador (ainda mais apoiado pelo UKIP).

Foi por isso com uma alegria imensa que vi aparecer JC: Jeremy Corbyn. Deputado há vinte anos, preso por se manifestar publicamente contra o Apartheid; que se encontrou com o Sinn Fein quando não havia pontes de diálogo (como o quer fazer com o Hamas); um dos líderes da "Stop the War Coalition" contra a Guerra no Iraque; defensor dos direitos das minorias desde sempre. Um homem de 66 anos que quis ir a concurso apenas porque queria debater o futuro do Labour (como o faz há dezenas de anos, todos os Domingos, com um grupo variado de pessoas; como o faz no Parlamento).
Acompanhei a par e passo, Twitter, FB, jornais. Para serem nomeados, os candidatos precisavam de ser apoiados por 35 deputados: Corbyn conseguiu-o literalmente no último minuto. Muitos deputados disseram que apenas lhe deram o seu voto para que pudesse haver um debate no partido. Depois veio o Orçamento de Estado. E eu ouvi o discurso de Corbyn, com a Câmara dos Comuns praticamente vazia, a altas horas. Um discurso impressionante de ideias, de clareza, e com um pormenor espantoso: a cada vez que alguém levantava o braço para pedir a palavra e rebater os seus argumentos, Corbyn parava o discurso, sentava-se, e cedia a vez a quem o interrompesse. E retomava, integrando e respondendo. 
A partir daí foi um crescendo que fez salas esgotarem ao ponto de Corbyn ter de falar em cima de um carro de bombeiros; levou cem mil novas pessoas a registarem-se no Labour, e está na frente para a corrida que se decidirá no início de Setembro. O que defende? Pode ler aqui. 
Mas de forma sucinta, algumas ideias claras: a nacionalização de alguns sectores-chave (como os caminhos de ferro, que explodem de dívida depois de privatizados); "quantitative easing" (a criação de dinheiro pelo Banco Central) para investimento público sobretudo em infra-estruturas; o fim dos cortes nos hospitais e na educação; universidades gratuitas (como acabou de fazer a Sra. Merkel na Alemanha). Resposta dos seus detractores: "ideias velhas".
Estas ideias são a base do Labour, a sua raiz, a matriz que fez do Reino Unido o que é hoje. Junta-se a isto a sua coerência, a sua simplicidade, o discurso não estudado, fora dos soundbytes, atento ao dia a dia das pessoas. Precisamente contra o "digo X para ter votos" que gerou estes políticos de plástico que temos hoje. O que tem sido espantoso, mas naturalmente decorrente do que acabo de expor: os imensos ataques de quem sido alvo. Num artigo impressionante Tony Blair pede que não votem em Corbyn; o texto tem frases mal construídas e derrapantemente dúbias, mas o seu título é uma pérola: "Mesmo que me odeie, não deixe que o Labour seja atirado pelo penhasco" (pode lê-lo aqui).

Ganhe ou não este lutador de 66 anos, uma coisa é certa: pôs todo o Labour a discutir estas ideias. Revelou como a austeridade nos foi imposta a todos como única saída, quando (como mostra Owen Jones) ela nasceu da falta de ideias da Direita perante o sucesso do Estado-Providência nos anos 1950. Há uma esperança e ela não é apenas Jeremy Corbyn: é o facto de dentro do sistema que nos oprime, se estar a criar uma alternativa. E aí, as palavras de T.S. Eliot tornam-se proféticas: "Time past is contained in time future".

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