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Hatherliana - em forma de obrigado imenso

Eu não sabia que o Céu era uma letra, um jogo, um chão ao contrário. Não foi ela que mo ensinou - foi ela que me destravou o cérebro, circum-navegou os olhos, fez rir o raciocínio. Chamava-se Ana Hatherly, foi minha mestra, eu fui seu devorador leitor e devedor amigo, e o mesmo céu levou-a no dia 5 de Agosto de 2015, dia de Santa Nona.
Não se sabe muito sobre Santa Nona, para além de ter sido mãe de três filhos Santos. Viveu no século IV. Ah, e converteu o seu marido, S. Gregório, o Velho. Tal como Santa Nona, pouca gente sabe quem foi Ana Hatherly. Mas os resultados da sua acção foram e sobretudo serão tão inventivos como os de Santa Nona.

Conheci Ana Hatherly na Faculdade (FCSH), em 1998. À época eu coordenava um grupo de leitura e performance de poesia, o Grupesco, que tinha fundado com outros colegas, entre os quais Diogo Bento e Cláudia Chéu. No ciclo "Tardes Poéticas" que organizávamos, e que decorreu durante 18 meses, com o apoio da Prof. Clara Rocha, haveria uma sessão dedicada a Ana Hatherly.
Para a preparar, tivemos um primeiro encontro, formal, numa sala da FCSH, do "Instituto de Estudos Portugueses". Alta, loura, clara e firme, de uma suavidade definida e de uma beleza total, dos gestos ao pensamento, à figura inteira. Ela queria personalizar a sessão, explicou-nos, queria dirigi-la, fazê-la de acordo com a sua visão. Para nós foi a primeira vez (de muitas) em que isso aconteceu. E assim ensaiou-nos, organizou-nos, e uma sessão precisa, diversa e fulminante nasceu. Lembro-me que foi tão bem conseguida que a repetimos, numa vez num evento no ISCTE. Lembro-me mais ainda da sensação de estar a viver um momento riquíssimo, em que um dos grandes poetas da língua portuguesa estava a dirigir uma sessão sobre a sua própria poesia, toda conduzida pela sua visão. Ideia, partitura e maestro ao mesmo tempo. Quão poucos seriam capazes disso, então, e ainda mais hoje. As cenas enquadravam-se, dos poemas experimentais aos sonhos de "Anacrusa", até à explosão das "Tisanas"; e Ana Hatherly ligava estes quadros com uma clareza definida: "cumpri a parte experimental da minha obra, integrada no projecto do Modernismo".
Ainda hoje o impacto desse encontro alastra na minha vida. Não foi apenas nem sobretudo a poeta e a pessoa que me marcaram. Foi sobretudo a coerência da prática e teoria, a fértil e fundadora ligação entre poesia e poética. Ana Hatherly concebia a sua prática artística com um todo. Não como um exercício (como rapidamente a quiseram reduzir alguns ontem e hoje); mas via-a como uma manufactura desconstrutiva, um símbolo-chave, um átomo do antigo Egipto na barriga de um cometa do futuro suscitado hoje. Entendia a sua obra, integrada no Experimentalismo, e por consequência no seguimento de todo o Modernismo, pictórico, cinematográfico e literário, como o fecho do programa Modernista. Sobre isso falarei no "post" seguinte.
A clara distinção que operou, trabalhou e performou tornou-se-me uma forma de ler, para não dizer até de ser. Nunca mais quis - nem procurei - escrever um poema que não fosse devorante, conscientemente devorante.

Santa Nona foi mãe de um dos grandes mestres da Igreja Ortodoxa, São Gregório. Sobre a sua mãe escreveu ele:
"Embora tenha tido o corpo de uma mulher, em seu espírito ela estava acima de todos os homens... Sua boca não conhecia nada além da verdade, ainda que em sua modéstia ela se silenciasse sobre os atos que lhe trouxeram fama."
Sobre Ana Hatherly eu diria o mesmo - mas "porque tinha tido o corpo de uma mulher". E porque tinha aprendido a silenciar muita coisa, a deixar que o tempo revelasse o valor da sua obra.

Seguiram-se anos de contactos calorosos mas espaçados. Em 2000, pedi-lhe, numa carta que me levou três dias ressuscitantes de insónias, se me queria prefaciar o meu primeiro livro de poesia, constelação dos antípodas. Telefonou-me numa manhã de Julho, lia eu The Line of Beauty de Hollinghurst sob a luz do Algarve:
- Aceito, mas quero contar-lhe uma história. Quando eu escrevi o meu primeiro livro de poesia, Um Ritmo Perdido, pedi a José Régio que me prefaciasse o livro. Ele disse-me que não. Disse que não queria que eu crescesse presa ao seu nome. Fiquei triste. Muitos anos depois, percebi que ele tinha razão, e o grande gesto que tinha feito por mim. Há dias, num congresso sobre Régio, tive ocasião de lá ir e contar esta história; e de agradecer a José Régio. Tudo isto para lhe dizer, Pedro, que faço o seu Prefácio, porque sei que não o vou limitar.

Não foi apenas um Prefácio - que aliás, começa: "Os Sábios sabem que irá passar-se". Foi uma bênção de liberdade e de independência.

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