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Hatherliana - em forma de homenagem



Republico um texto originalmente publicado no "Mil Folhas" do "Público", em Junho de 2006. Mais uma homenagem à poeta desaparecida há um mês.



UMA TISANA É UM TEXTO QUE REFRESCA A ARDER



Nova edição das Tisanas, aumentada

Ana Hatherly
463 tisanas
Quimera
174 páginas

       Desde 1969 que Ana Hatherly vem publicando em livro um conjunto de textos breves, que oscilam entre o poema em prosa, o micro-conto, a fábula,  diário (sem data), aforismo, parábola, o mito - as “Tisanas”. Republicadas e aumentadas em 1970, 1978, 1997, conhecem agora uma nova edição aumentada, cifrando-se agora em 463 Tisanas.
       O leitor perguntará o que caracteriza uma “Tisana”. Ana Hatherly responde, na “Apresentação” a esta edição: «considero que são infusões e não efusões»: contra a “efusão” lírica, vinda da “inspiração”. Trata-se de, também nas suas palavras: «O que caracteriza uma casa por dentro é a interferência da mobília»: este início da Tisana 50 parece-me conter um dos aspectos inovadores que caracterizam as “Tisanas”: o reconhecimento – e, depois dele, a libertação vitoriosa e criadora – da interferência de modelos líricos. Ao assumir a interferência da mobília da sinceridade, do hermetismo, de um lirismo ultra-imagético, de um realismo pós-moderno, Ana Hatherly inaugura verdadeiramente o que é a poesia portuguesa contemporânea. Vários são os aspectos inovadores que caracterizam estas Tisanas.
Primeiro: a recusa que as “Tisanas” encerram. Quando falava na recusa da “interferência da mobília”, falava na recusa da sinceridade: esse vocábulo da “presença” que José Régio imortalizou como uma atitude pesquisadora e simultaneamente coerente de si próprio, e que viajou dos anos 20-30 para as décadas seguintes como um libelo de recusa da imaginação ou da originalidade, a favor de uma espécie de verdade sentidamente biográfica; é contra esta ideia, que não tem a ver com Régio e a “presença” mas com um certo tipo de leitura que sobre ela foi fabricada, que estes textos se levantam, ao oferecer um tipo de sujeito que ironiza e desconstrói este modo de confessionalismo. Recusa também do hermetismo, que associamos naturalmente, por via de Rimbaud e Baudelaire, ao poema em prosa.  Recusa da interferência, também, do lirismo ultra-imagético. E também recusa de um realismo pós-moderno de que alguns romances dos anos 80 são pródigos (já distanciados do neo-realismo puro e duro), e onde alguma da poesia desses anos ainda bebe.
A natureza das Tisanas, em segundo lugar: textos inqualificáveis por não poderem ser identificadamente de nenhum subgénero literário, mas por incorporarem vários subgéneros, do poema em prosa ao micro-conto, até às fábulas. Incorporação explosiva, mantendo sempre uma hesitação estrutural que faz com que o leitor permanentemente se questione sobre o que é o texto que lê, e como o integrar em termos de intenção. O leitor das “Tisanas” fica sempre num equilíbrio escaldante, desconcertado pela sua variedade de registos, subgéneros e temas, sem saber com que aspecto do real, da ficção, do maravilhoso ou da desconstrução (ou de nenhum destes) lida em cada texto. Até porque na obra de Hatherly a desconstrução equipara-se ao real e à ficção.
As Tisanas são também um texto onde convivem vários temas diferentes, alguns tão antigos como a literatura oral, outros como a literatura como a conhecemos desde o Romantismo, outros vindos com as vanguardas do século XX, outros provindos da cultura oriental. As combinatórias entre temas não terminam, chegando até à mistura de tudo isto, da sabedoria ancestral ao mundo ao contrário, como na Tisana 61: «Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.»
Em quarto lugar, a dimensão “pós-vanguarda” destes textos. Em alguns casos da literatura portuguesa do século XX, como os de Ana Hatherly, Alberto Pimenta ou Mário Cesariny, não criando neste momento arte de vanguarda (por estarem cumpridos ou modificados os seus pressupostos), mantém um dinamismo ruptural que se incluiu na sua voz. É o caso das Tisanas. Leio um dinamismo ruptural em pelo menos três dimensões: antes de mais, por ser um “work in progress” único na literatura portuguesa, que vem do experimentalismo e se mantém ainda hoje como texto a ser permanentemente escrito para além do próprio projecto experimentalista. Se a ideia de um livro permanentemente a ser escrito, com um género próprio, percorrendo quase desde os primeiros momentos de produção de Hatherly, é já de si pelo menos inovadora, a coerência de temas e objectivos das Tisanas enquanto progresso é outro aspecto marcante.
Segunda dimensão: na representação do sujeito, não só em auto-retrato, mas também na desconstrução dos nexos que separam as fronteiras entre texto e autor; é como se os limites da representação e do próprio texto fossem permanentemente abolidos e postos em causa no texto das Tisanas.
Último aspecto: na alteração permanente, via este texto estranho em processo/ progresso desde há 36 anos, da ideia de artista; do modelo de intelectual como reserva cultural dos anos 60; ao vanguardista da mesma época; ao escritor lateralizado na época dos mass media (anos 80); à ideia de terrorista da personalidade que vai passando pelas novas gerações, e que Ana Hatherly previa já nas primeiras 39 Tisanas e mantém.
       Também aqui a representação do feminino é bastante particular, a anos luz da postura combativa que teria de ter uma autora nos anos 60, e já não tanto questionando as diferenças de sexo mas as potencialidades da representação do género. Mas, mais do que isso, as “Tisanas”, desde o seu título, incluem como um combate à ideia feminina de autora, que deveria estar demasiado ocupada a arrumar a casa em versos amorosos ou romântico-gaseificados, mas que escreve poemas em prosa, textos inqualificáveis que combatem certos protótipos de beleza ou mesmo de texto, sem marcação de género (“sou um escritor”, lê-se continuamente nas Tisanas). Não há dúvida que as Tisanas só podem ser remetidas a um quase silêncio como desde 1969: não estão nem no discurso dominante, nem no discurso subterrâneo, mas adiante: como as verdadeiras obras de arte.
Terá ainda de ser efectuada uma pertinaz investigação sobre o contributo das Tisanas para a fixação da forma pouco utilizada do poema em prosa em Portugal. Forma poética rara, que apenas nos anos 60-70 conhece representações maiores, com Nuno Júdice, Alberto Pimenta ou Luís Miguel Nava. Mas creio ser sobretudo com as Tisanas que a condensação discursiva, e a tensão minimal entre metáfora e narração se fixa em Portugal. Mesmo que as Tisanas não sejam poemas em prosa, mas utilizem muito da sua forma e modo de proceder (embora possam, também, ser considerados inovadores no micro-conto em Portugal, género que entre nós só teve Mário Henrique Leiria, e Cuti no Brasil), como cultores.
Por último: pela sua arte do fragmento, as Tisanas incorporam a perturbação do objecto artístico modernista do século XX, em que as formas de percepção se alteraram: já não é a obra que constrói um significado, é o leitor/ público que reorganiza os fragmentos e lhes dá um sentido. Assim também com cada uma das Tisanas e com todo o corpo das Tisanas: por encenar e ensinar as leis da percepção da obra de arte.

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