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Europe by train: peso o coração



A viagem é um comboio desviado nos carris do sono. Tantas estações adormecidas, desde o metro em Bruxelas às 5 da madrugada, a Bruxelles-Nord num manto de nuvens, a Köln irrequieta num vaivém de pessoas em direcções infinitas. Um elevador faz entrar uma mulher de cadeira de rodas dentro do comboio – e um grupo de chineses acha isso a coisa mais fascinante do mundo, fotografando-o de todos os ângulos.
Subo para o comboio como se me despedisse. Esta viagem, que foi  ano e meio de minha vida, será provavelmente a última. Empurro a mala rindo-me do meu sentido dramático lusitano, que mesmo anos na Alemanha não conseguiram erradicar. Uma vaga falta de vontade de sair de Bruxelas, apesar de não ter pela cidade sentimentos radicais. Vou a Berlim, penso, e isto era para mim há tão pouco tempo uma notícia tão feliz.
O comboio despega-se do cais e a organização alemã acorda-me saudades. Uma senhora de oitenta anos pergunta-me se há lugares vagos e sorri, enquanto tira do saco dois livros de contos de Tchekhov (a sabedoria de ler os clássicos quando se é tudo cais). Quase em Wuppertal e eu que não me prometi a visita à cidade-montanha russa.
Porque é que voltar a Berlim pesa? A saudade, claro. Saber que nunca provavelmente voltarei a amar uma cidade como amei Berlim. Que é um pouco como voltar a um lugar onde sabemos não haver futuro, só um passado claro. Sinto mais isso com Berlim do que com Lisboa. Estranhas as geografias do coração. Mas também porque nestes últimos anos a cidade muda-se. A capital criativa, de uma população livre, torna-se uma cidade gentrificada, habitada por eurobrats a tentarem ser hipsters, cara, descaracterizada e standardizada. Tantos amigos que partiram, porque não havia trabalho, porque não reconheciam mais a sua cidade, porque o presente gentrificado era tão rápido e imperativo que tiveram de sair das suas casas.  Símbolo de uma Europa que passou a ser contabilística em vez de inspiradora, impositiva em vez de libertadora, assim também Berlim. Com um peso no coração, e uma saudade do que poderia ter sido, faço a viagem em forma de adeus.

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