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a cor da luz

Fotografia de Artur Pastor, 1965
Uma manhã de Julho no Algarve: foi aqui que Deus testou a cor de luz.
Sempre o eco do título de António Ramos Rosa, algarvio de Faro: "estou vivo e escrevo sol". A luz do Algarve, quando nasce, ensina a respirar, a atravessar as coisas como se fossem antigas de agora.
Falo da luz sob uma figueira velha no Algoz; da pedra vermelha de Silves contra os olhos, a refundar o sangue; da escadaria de Vilalara onde Natércia Freire escreveu (ouviu?) de memória "Presença de Ulisses", dos azuis dos Salgados na raiz das rochas, onde eu quase morri.
Não entendo por isso como pode alguém satisfazer-se com a brevidade do que nos querem vender como sendo hoje o Algarve: mais uma colecção de praias fatiadas por mais repetições de resorts, agrafadas a campos de gole ou centros comerciais. O Algarve antigo e eterno, assassinado todos os dias, ainda existe e se esconde, secreto, no interior, no desértico, no quase imaterial do seu cheiro: essa milenar mistura de luz, alfarrobas, figos secos e laranjeiras, onde parece que Deus testou a ideia da cor.

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