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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2015

a cor da luz

Uma manhã de Julho no Algarve: foi aqui que Deus testou a cor de luz.
Sempre o eco do título de António Ramos Rosa, algarvio de Faro: "estou vivo e escrevo sol". A luz do Algarve, quando nasce, ensina a respirar, a atravessar as coisas como se fossem antigas de agora.
Falo da luz sob uma figueira velha no Algoz; da pedra vermelha de Silves contra os olhos, a refundar o sangue; da escadaria de Vilalara onde Natércia Freire escreveu (ouviu?) de memória "Presença de Ulisses", dos azuis dos Salgados na raiz das rochas, onde eu quase morri.
Não entendo por isso como pode alguém satisfazer-se com a brevidade do que nos querem vender como sendo hoje o Algarve: mais uma colecção de praias fatiadas por mais repetições de resorts, agrafadas a campos de gole ou centros comerciais. O Algarve antigo e eterno, assassinado todos os dias, ainda existe e se esconde, secreto, no interior, no desértico, no quase imaterial do seu cheiro: essa milenar mistura de luz, alfarrobas, figos…

Hatherliana - em forma de homenagem

Europe by train: peso o coração

O tempo passado contém o futuro

A derrota do Labour nas eleições parlamentares britânicas deste ano parecia votada a outra derrota: a de uma incapacidade de regenerar o partido. Os primeiros candidatos a candidatos mantinham a mesma postura: um centro desmoderadamente pró-austeridade, um Labour descaracterizado, herdado de Tony Blair e do seu "New Labour".
Aconteceu que acompanhei essa derrota lendo um dos mais perturbadores ensaios que li nos últimos tempos: The Establishment, de Owen Jones. Num estilo conversado mas muito sustentado em análise histórica, política, em entrevistas aos intervenientes, e sobretudo numa análise fundamentada, Jones responde à pergunta que todos nós já nos teremos feito: mas donde raio veio a "austeridade"? O simples facto de termos de fazer a pergunta mostra como quem imaginou, preparou e instalou a ideia nas democracias ocidentais o fez muitíssimo bem.
Deixemos Portugal, Espanha e Grécia à parte, e se virmos os casos dos países nórdicos, da Grã-Bretanha, da Alemanh…

Hatherliana - em forma de obrigado imenso

Eu não sabia que o Céu era uma letra, um jogo, um chão ao contrário. Não foi ela que mo ensinou - foi ela que me destravou o cérebro, circum-navegou os olhos, fez rir o raciocínio. Chamava-se Ana Hatherly, foi minha mestra, eu fui seu devorador leitor e devedor amigo, e o mesmo céu levou-a no dia 5 de Agosto de 2015, dia de Santa Nona.
Não se sabe muito sobre Santa Nona, para além de ter sido mãe de três filhos Santos. Viveu no século IV. Ah, e converteu o seu marido, S. Gregório, o Velho. Tal como Santa Nona, pouca gente sabe quem foi Ana Hatherly. Mas os resultados da sua acção foram e sobretudo serão tão inventivos como os de Santa Nona.

Conheci Ana Hatherly na Faculdade (FCSH), em 1998. À época eu coordenava um grupo de leitura e performance de poesia, o Grupesco, que tinha fundado com outros colegas, entre os quais Diogo Bento e Cláudia Chéu. No ciclo "Tardes Poéticas" que organizávamos, e que decorreu durante 18 meses, com o apoio da Prof. Clara Rocha, haveria uma ses…