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O início da Segunda Idade Média, III

As contas são simples:

- Custo total do BPN, segundo o Tribunal de Contas, no fim de 2013: 2,2 mil milhões (valor já excedido)
- custo total das perdas do Novo Banco, no melhor cenário: 1 mil milhão
- custo das empresas públicas (final de 2013): 20 mil milhões
- encargos das PPP (até 2014): 19 200 mil milhões 
Total: 42,2 mil milhões

Ora isto são 54% do valor do pacote de apoio que Portugal pediu à troika.

Com isto:
- vendeu-se a EDP, que tem dado lucros cada vez maiores, que poderiam ser agora aproveitados pelo Estado para pagar a referida dívida (se a EDP tivesse ficado nas mãos do Estado mais dois anos, ter-se-ia recuperado o valor da venda nesse período). Vendeu-se por 2,7 mil milhões em 2011, e teve lucros totais em 2012, 2013 e 2014 superiores a isso - está tudo aqui e aqui).
- cortaram-se as pensões (dinheiro que não é do Estado, que está à guarda do Estado);
http://www.medievalages.net/wp-content/uploads/2013/09/medieval-food.jpg- cortou-se o subsídio de desemprego, e outros apoios sociais;
- cortou-se na saúde e na assistência;
- mais grave, cortou-se no investimento.

Ou seja, atirou-se Portugal para níveis pré-revolução em termos de poder de compra, qualidade de vida, direitos sociais, divisão da riqueza. Como a 24 de Abril de 1974, o país está nas mãos de oligarquias que são as verdadeiras proprietárias do país. Com a diferença de que em 1974 eram portuguesas. Agora alguém sabe quem são?
Os portugueses já reflectiram que as suas dívidas estão na mão de entidades financeiras que podem, de um dia para o outro, ser donas do país?

Quero ver daqui a 3 ou 4 anos o estado a comprar boa parte destas empresas de volta - como vai inevitavelmente acontecer no Reino Unido com os comboios, por exemplo.

Os direitos laborais recuaram quase para situações pré-25 de Abril. E sem apoios nem investimento, os cidadãos são forçados a aceitar trabalho mal-pago e desprotegido, quando os bancos os têm presos com dívidas. São os servos da gleba, de novo: não eram escravos, mas estavam presos à terra e ao que os senhores queriam fazer deles. Há diferenças?

Para além da medievalização de tudo, desde a posse, aos direitos, à liberdade de facto, uma questão ainda pior: porque é que nenhum parlamento, nacional ou europeu, legislou sobre os gestores criminosos que arruinaram empresas? Que criou milhares de desempregados, milhares de pobres, milhares de mortos?

E não é isto que está em causa na Grécia? Hoje? Agora?

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