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O inicio da Segunda Idade Média, I

Para quem sabe um pouco de História, a perspectiva dos nossos políticos que só vêem Economiquês é uma devastadora forma de estupidez. Mais: de barbárie. Porque um bárbaro, para um Romano, era aquele que não tinha um sistema de regras claras e universais, uma lei, uma civilização. Esquecer a História e não pesar os seus actos na longa cadeia de acontecimentos e sangue de onde todos provimos é não apenas bárbaro, é uma forma de destruição.

Nunca na história da União Europeia se deixou um parceiro abandonar uma reunião; se fez uma conferência de imprensa nas suas costas; se planeou uma nova reunião sem ele. Isto é contra todos os princípios da União Europeia, que sempre funcionou pela unanimidade e pelo compromisso. Esse é o primeiro - e esperemos que não o mortal - golpe no funcionamento das instituições europeias. 
Porém, esta não é a primeira vez que o Ocidente abandonou a Grécia.

O "Ocidente" abandonou a Grécia por três vezes. E em todas essas vezes, as consequências mudaram absolutamente o mundo.
A primeira foi em 1054, com o Cisma do Oriente. A Igreja Católica separou-se da Igreja de Constantinopla (criando a Igreja Ortodoxa) por causa de quatro questões: um "e", fermento de pão, primazia do Papa, e qual de cinco patriarcas é mais importante. E assim se separaram duas Igrejas. E a partir daqui, eis um argumento para deixar entregues à sua sorte os pedidos desesperados de ajuda militar aos cristãos ortodoxos, sempre que atacados. Não eram como "nós", tão diferentes que até era melhor que tivessem uma igreja (herética) própria.
O segundo caso deu-se em 1204, quando a Quarta Cruzada, em vez de conquistar Jerusalém, toma Constantinopla, atravessando a cidade à espada, roubando tesouros (entre os quais o célebre Leão de Veneza), e criando um novo império - católico, claro. Durou poucas dezenas de anos.
A última delas, aliás, foi em 1453. O Imperador bizantino Constantino Póstumo foi deixado à sua sorte, perante a invasão turca. Nenhum líder ocidental quis defender o império bizantino (pois era, grego e ortodoxo) de mil anos, herdeiro dos romanos. As consequências foram tão grandes que os historiadores consideram que com este evento termina a Idade Média.

A quarta vez foi/ será agora. A Grécia não está a pedir que lhe dêem dinheiro, mas que a deixem respirar. Do dinheiro dos resgates (nota o Guardian aqui), menos de 10% foi usado directamente pelo governo para agir na economia. Não compreendo como alguém deixou cair o plano Strauss-Khan: não se dá à Grécia nenhum dinheiro mais, adia-se tudo durante dois anos; usando o seu orçamento, terão de refazer-se. Um "haircut" temporário.
O Ocidente vai continuar a ensinar civilização à Grécia, vai continuar a fechar-se sobre si mesmo. Se isto acontece, eis a quarta vez, e com ela, talvez, o início da Segunda Idade Média. Se com ela trouxer - esperemos que não - o fim do Euro.

Nada separa os economistas da austeridade convertidos em políticos europeus dos fundamentalistas católicos que cortaram com Bizâncio em 1054; dos cruzados de 1204 que trespasssaram milhares de cristãos; ou dos líderes cristãos que deixaram Bizâncio ser arrasada pelos Otomanos. Pão, pensões, patriarcas e leões: o mesmo, revisto e piorado. Todos falavam Economiquês. Todos Bárbaros. Todos medievais. E o que é mais grave, neo-medievais.

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