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O Acordo Raso

Fotografia de Joshua Benoliel
Primeiro fui contra o Acordo ortográfico. Depois aceitei-o. Agora, que dou aulas de Português fora de Portugal já há vários anos, vejo como o Acordo não funciona.
De centenas de exemplos que venho coligindo, e que talvez um dia venham a ter forma de texto, apenas três. Não são divertidos, são pragmáticos.

1. Uma aula com alemães, polacos, espanhóis, uma francesa, uma australiana, um dinamarquês, uma lituana. Alguém me perguntou como se chamava a loja onde se faziam óculos. Ia escrever "Óptica", mas lá veio o acordo: "Ótica".
Em todas as outras línguas - do polaco ao dinamarquês - lá estava o "p".

2. Boa regra aprendida nas aulas de Latim: "sempre que há um acento nas formas verbais, é sinal de que caiu alguma coisa, ou se juntou com outra". São placas tectónicas, continentes que acabam e chocam com outros nas suas raizes. Aprendi assim, ensino assim: o acento agudo no Pretérito Perfeito Simples (PPS) conta uma história de vogais desaparecidas que liga a nossa língua à dos franceses, italianos, castelhanos, catalães e romenos. Agora caiu. Distinguir "andámos todo o dia" ou "andamos todo o dia" é zero: ou melhor, é "facultativo". Uma marca de dois mil anos de língua em transformações são facultativos por decreto.

3. Não é apenas a ligação etimológica que se perde - e que faz sentido quando um estrangeiro aprende Português, ou quando queremos estabelecer a raiz de uma palavra. Escrever "Egito" mas "Egípcios" porque vem de "Egipto" é como dizer que AC é Antes de qualquer coisa que não interessa.
Terminei o meu curso superior em Estudos Portugueses em 2000. Aí aprendi que o Português do Brasil e o Português do Portugal eram já duas línguas distintas. Este acordo quer selar uma realidade que não existe mais. Que bom que haja duas línguas. O acordo é um casamento forçado que leva as duas partes a querer anular o passado uma da outra.
O Acordo, que poderia ser uma extraordinária e concreta forma de mostrar que não temos um complexo imperial nem sequer na língua que impusemos às nossas ex-colónias, tornou-se o inverso: uma ferramenta de neo-colonialismo. Que os nossos co-falantes angolanos e moçambicanos, para já, rejeitam.
Como é que um país tão antigo e rico de história gerou políticos tão rasos?

O Acordo não tem lógica: nem linguística nem histórica. Terá uma lógica política que não se entende, mas é sem dúvida um resquício de um país que viveu 40 anos em ditadura deixar que lhe cortem a língua sem reagir.
Esperemos que estes dois sinais lusófonos (aqui e aqui), que mostram como o acordo não existe fora de Portugal, confirmem que ele será brevemente suspenso.

O que fazer?
- Resistência consoante:
Segundo a a base IV do Acordo, propõe-se a supressão das consoantes mudas, como contei no ponto 1 anterior. É questão de resistência. Eu limito-me a fazer uma greve de zelo: a consoante deixou de ser muda para mim. Passei a dizer "óPtimo", "DireCção", "abjeCto". Assim não a posso pura e simplesmente apagar.
- Resistência votante:
Eu recuso-me a votar nas eleições Legislativas, e nas Eleições Presidenciais, em partidos que não se manifestem contra o Acordo - ou a favor do Referendo sobre o Acordo (que pode saber como assinar aqui).
Se nenhum partido ou candidato se manifestarem activamente contra o Acordo, votarei alegremente NULO, escrevendo "ABAIXO O ACORDO".
Partilhe este post para que sejamos muitos. Se os votos nulos atingirem percentagens elevadíssimas, isso fará sem dúvida os políticos reagir.

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