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A mostrar mensagens de Julho, 2015

As Crónicas vão de férias até 15 de Agosto

O Acordo Raso

Primeiro fui contra o Acordo ortográfico. Depois aceitei-o. Agora, que dou aulas de Português fora de Portugal já há vários anos, vejo como o Acordo não funciona.
De centenas de exemplos que venho coligindo, e que talvez um dia venham a ter forma de texto, apenas três. Não são divertidos, são pragmáticos.

1. Uma aula com alemães, polacos, espanhóis, uma francesa, uma australiana, um dinamarquês, uma lituana. Alguém me perguntou como se chamava a loja onde se faziam óculos. Ia escrever "Óptica", mas lá veio o acordo: "Ótica".
Em todas as outras línguas - do polaco ao dinamarquês - lá estava o "p".

2. Boa regra aprendida nas aulas de Latim: "sempre que há um acento nas formas verbais, é sinal de que caiu alguma coisa, ou se juntou com outra". São placas tectónicas, continentes que acabam e chocam com outros nas suas raizes. Aprendi assim, ensino assim: o acento agudo no Pretérito Perfeito Simples (PPS) conta uma história de vogais desaparecidas q…

O início da Segunda Idade Média, III

As contas são simples:

- Custo total do BPN, segundo o Tribunal de Contas, no fim de 2013: 2,2 mil milhões (valor já excedido)
- custo total das perdas do Novo Banco, no melhor cenário: 1 mil milhão
- custo das empresas públicas (final de 2013): 20 mil milhões
- encargos das PPP (até 2014): 19 200 mil milhões 
Total: 42,2 mil milhões

Ora isto são 54% do valor do pacote de apoio que Portugal pediu à troika.

Com isto:
- vendeu-se a EDP, que tem dado lucros cada vez maiores, que poderiam ser agora aproveitados pelo Estado para pagar a referida dívida (se a EDP tivesse ficado nas mãos do Estado mais dois anos, ter-se-ia recuperado o valor da venda nesse período). Vendeu-se por 2,7 mil milhões em 2011, e teve lucros totais em 2012, 2013 e 2014 superiores a isso - está tudo aqui e aqui).
- cortaram-se as pensões (dinheiro que não é do Estado, que está à guarda do Estado);
- cortou-se o subsídio de desemprego, e outros apoios sociais;
- cortou-se na saúde e na assistência;
- mais grave, co…

O início da Segunda Idade Média, II

No texto anterior, explicava as consequências de cada vez que o "Ocidente" abandonou a Grécia à sua sorte. É preciso começar por dizer, antes de mais, que a Grécia não é Oriente: a Grécia é parte do Ocidente. Bizâncio (depois Constantinopla, agora Istambul, chegou a ser capital do Império Romano, de Sagres à Escócia, de Bruxelas à Síria), precisamente no tempo de Constantino, que adoptou o Cristianismo que deu à Europa uma das suas chaves civilizacionais.  Já o escrevi aqui muitas vezes, volto a dizê-lo hoje, neste tempo dramático: a chave para a compreensão da Grécia está no Império Bizantino. E a chave para o Ocidente está neste Império romano e grego, que durou mil anos, e que tem na nação grega a herdeira da sua mentalidade e também dos seus fantasmas imperiais. Esquecer isto é esquecer três mil anos de História. Curioso: enquanto antes do Cisma entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa (século XI), os imperadores bizantinos reuniam sábios de todas as prove…

O inicio da Segunda Idade Média, I

Para quem sabe um pouco de História, a perspectiva dos nossos políticos que só vêem Economiquês é uma devastadora forma de estupidez. Mais: de barbárie. Porque um bárbaro, para um Romano, era aquele que não tinha um sistema de regras claras e universais, uma lei, uma civilização. Esquecer a História e não pesar os seus actos na longa cadeia de acontecimentos e sangue de onde todos provimos é não apenas bárbaro, é uma forma de destruição.
Nunca na história da União Europeia se deixou um parceiro abandonar uma reunião; se fez uma conferência de imprensa nas suas costas; se planeou uma nova reunião sem ele. Isto é contra todos os princípios da União Europeia, que sempre funcionou pela unanimidade e pelo compromisso. Esse é o primeiro - e esperemos que não o mortal - golpe no funcionamento das instituições europeias.  Porém, esta não é a primeira vez que o Ocidente abandonou a Grécia.
O "Ocidente" abandonou a Grécia por três vezes. E em todas essas vezes, as consequências mud…