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Europa: e depois do adeus?

Escrevo na madrugada em que se soube que o plano de apoio à Grécia acabou. Não sabemos, espero e creio que nenhuns de nós, o que se vai passar depois. Volto a escrever o espero e creio, porque ainda acredito que não haja agendas secretas na atitude dos governos europeus.
A discussão centrou-se em 0,5% do PIB. O equivalente a quatro BPNs. Alguém já fez a conta ao dinheiro que a UE deu aos bancos, directa e indirectamente? Vamos deixar cair um país e continuar a pagar, na carne e na realidade, o dinheiro mirabolante inventado pelas instituições de crédito?

Há verdades que devem ser ditas: a Grécia reduziu o seu deficit fiscal de 15.6% do PIB em 2009 para 2,5% em 2014, "uma redução nunca vista no mundo", aponta Karl Whelan. O mesmo economista irlandês que aponta, citando o relatório da Comissão Europeia, que em 2009 havia na Grécia 907 mil funcionários públicos; e que em 2016 são 621 mil. Recomendo o artigo de Whelan, que pode ser lido aqui.

Não, não está em causa o que os governos gregos fizeram ou deixaram de fazer antes ou depois, nas contas enganadas ou no que quer que seja. Está em causa que o ajustamento real da economia da Grécia foi tremendo. Está em causa que todos o permitimos, segundo uma receita chamada "emagrecer o Estado social". Mas esquecemo-nos todos de como esta crise começou? Em 2008, nos Estados Unidos, com a falência de duas instituições de crédito que davam dinheiro a torto e a direito - dinheiro inventado? E agora chegámos aqui: à União Europeia a ter um programa financeirista, contra o Estado Social, a resolver a crise querendo cortar nas pensões? Mas o que diriam os nossos avós e bisavós que criaram este estado social morrendo nas frentes de batalha?
E alguém viu sentados em Bruxelas credores privados, como bancos ou até fundos de pensões? A troca de dívida deixou-a toda na mão dos Europeus. E somos nós, os parceiros dos Gregos, que agora lhes queremos cortar as mãos. Com Portugal, Irlanda e Espanha incapazes de defender o nosso semelhante.

Parei este texto. Peguei na bicicleta e fui dar uma volta ao Parque Cinquentenaire, passando pela rotunda de Schuman, que esteve fechada dias a fio por causa da reunião. Uma rotunda fechada, que símbolo. Uma rotunda com o nome de um homem que inventou um plano para salvar a Europa, e com isso evitar para o mundo outra guerra mundial. Volto para casa ainda menos europeu.

A Europa morreu hoje - se um pouco ou muito, veremos. Deixámos cair o nosso semelhante, o nosso irmão grego, por meia dúzia de trocos. Apenas porque ele defendeu um princípio sagrado de um Estado que se preza: não tocar nas reformas dos que trabalharam toda a vida pelo seu sustento. E assim, lentamente, o projecto de Schuman foi vencido pelo "Establishment" que já acabou com o Estado-Providência.

Mas hoje, se a Europa morreu, a Grécia deu-nos uma lição de Democracia.


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