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Cem anos de Sviatoslav Richter

Voltávamos da praia, sob um cansaço azul. O carro separava-se da areia e do mar, entre palmeiras e a terra amarela e perfumadamente antiga do Algarve. No rádio, a perfeição: a suavidade em estado puro. Beethoven depois de uma tempestade, quando o mundo regressa da agitação.
Não tardou a terrível notícia: era Beethoven, sim; era o terceiro andamento da Sonata "Tempestade". E era Richter - que tinha acabado de morrer.
Tanta luz reunida, num único ser, em tudo o que tocou; pensei que era assim que o mundo acabava: quando os seres que criam luz e transparência na terra desaparecem. Mas que assim também um dia terminaria o mundo: num dia de mar dourado, ao som de Beethoven, numa viagem colectiva, morrendo com o som em direcção à luz.

Enquanto a Europa se devastava na Primeira guerra, uma luz rebentava dos escombros. Há cem anos, comemorados neste 2015, nascia Sviatoslav Richter. De mãe russa, pai alemão, numa pequena povoação ucraniana, entre o fim do tempo dos Impérios e o início do século de todas as devastações.

Eu tinha dezasseis anos quando o meu pai me levou a ouvi-lo, no CCB. Recordo o piano velho, o candeeiro de pé, os passos pequenos e fixos, o queixo esticado quase à Carlos V, que lhe dava um ar sábio, dramático, quase pétreo. Haydn, Schubert e Beethoven. Não era emoção: era qualquer coisa tão completa ao entendimento que me emocionava mais que uma interpretação arrebatada. Foi quando percebi que a música era arquitectura, mas também desocultação - como quando Champollion quebrou o código dos hieroglifos.
Antes ainda, a primeira vez que ouvira uma das suas gravações. A mais célebre: o 2º Concerto para Piano de Rachmaninov, com Rowicki (DG). Era uma manhã de verão, dez horas, e eu chorei sufocando o peso de tanta beleza.

Agora que morrera, voltando eu da praia, eu sentia uma espécie de dor, como uma perda que fosse maior do que uma admiração - como se eu fosse testemunha de uma luz que desaparecia, a testemunha ocular do fim de um tempo. Tudo parecia cair na Rússia naquela década de 1990; e Richter, acossado pelo regime estalinista por todos os lados, como outros, desaparecia também.

Fui ouvindo os seus discos, agradecendo a quem pôs microfones em cada lugar por onde este homem passou. Vi o magnífico documentário de Bruno Monsaigeon (que pode ser achado aqui), e ainda mais, vinte anos depois da primeira vez, tudo o que Richter tocou é um mundo aparte dentro do mundo.

O Guardian fez uma lista com que só concordo com metade.
Para mim, aqui estão cinco gravações essenciais:
- Beethoven: Sonata "Tempestade" (que pode ouvir carregando no video acima);
- Schubert: Sonata D. 894. Os tempos mais longos em Schubert, música tão longa e funda como o princípio do mundo.
- Mozart e Schubert: Sonatas para Piano, com Benjamin Britten. 
- Brahms: 2º Concerto para Piano. Ouvir Richter, porque Leinsdorf não traz propriamente uma leitura devastadora.
- Rachmaninov: 2º Concerto para Piano. Um clássico absoluto. Três páginas de Platão e este disco, e toda a teoria do amor está em marcha.

E ao ouvi-lo, ao perceber como levanta o planeta pelo som dos seus dedos, compreendo: assim partem as escadas para a luz.

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