Avançar para o conteúdo principal

100 Sem Nunca: As Sonatas para Piano de Mozart por Glenn Gould

Um álbum tão divisivo e iconoclasta que cada vez que o ponho a tocar temo que a aparelhagem quebre. Um álbum tão genial que mesmo os críticos que ainda hoje dificilmente aceitam Glenn Gould ignoram olimpicamente este "cometa vagabundo" (a expressão é de Supervielle). É o que acontece quando um homem reinventa um rio.

1. Porque não passo sem
Quer já conheça as Sonatas de Mozart de trás para a frente, ou apenas de toque de telemóvel, ou dos ferrinhos dos meninos quando começam a aprender o solidó, este Mozart a bordo do seu instrumento materno é uma sondagem sonora, um delírio rítmico, uma investigação radical: o piano esticado, puxado, levantado, atirado à sua melodia interior como uma pergunta. Primeira imensa qualidade: Gould investiga enquanto toca, encontra a canção de embalar Mozart na sua própria música. Gould entende como Mozart fazia destas sonatas-monólogos ao piano um laboratório e um regresso a casa.
Segunda devastação: os Allegros rápidos são fulminantes, tirando Mozart do barroco, e antecipando por anos o estudo dos instrumentos originais e das práticas de época. E os Andantes melancólicos, lentos, quase estirados. Pronunciadamente, é certo - mas quem não tenha ouvido o Mozart da "Grand Partita" não sabe do seu amor por este tempo longo, imenso, gémeo da eternidade.
Terceira revelação: a ironia, o jogo, o divertimento. O leitor já se deu conta de quantas peças chamadas "Divertimento" compos Mozart? E uma ironia e diversão como parte da performance. Os risinhos de Tom Hulce em Amadeus estão incluídos. Quem pegue nas partituras dos Quartetos dedicados a Haydn pode ver quantas brincadeiras em forma de quarteto estão aí partilhadas - com Haydn, o rigorista irónico.
Acabe-se com um last but not least significativo: o próprio texto de introdução de Gould, que precavido do que sucederia a este álbum, entrevista o próprio Mozart.

2. Porquê este dentre tantos?
Não farei uma análise a 6 CDs. Publico aqui dois videos de peças bem conhecidas que falarão por si. Mas Gould junta análise, originalidade e performatismo. O que se pode pedir mais?
Há uma energia contagiante - como se o mundo fosse criado pelo som.

3. Há versões alternativas?
Bom, esta é por definição, a versão alternativa. Mas para uma surpresa na surpresa, Friedrich Gulda (The Gulda Mozart Tapes, I e II, DG), gravadas em casa num gravador velho e num Bosendorfer sexy que vos perseguirá até à eternidade. Ou o álbum Horowitz (DG), de que falarei nesta rubrica mais tarde.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…