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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2015

Europa: e depois do adeus?

Escrevo na madrugada em que se soube que o plano de apoio à Grécia acabou. Não sabemos, espero e creio que nenhuns de nós, o que se vai passar depois. Volto a escrever o espero e creio, porque ainda acredito que não haja agendas secretas na atitude dos governos europeus.
A discussão centrou-se em 0,5% do PIB. O equivalente a quatro BPNs. Alguém já fez a conta ao dinheiro que a UE deu aos bancos, directa e indirectamente? Vamos deixar cair um país e continuar a pagar, na carne e na realidade, o dinheiro mirabolante inventado pelas instituições de crédito?

Há verdades que devem ser ditas: a Grécia reduziu o seu deficit fiscal de 15.6% do PIB em 2009 para 2,5% em 2014, "uma redução nunca vista no mundo", aponta Karl Whelan. O mesmo economista irlandês que aponta, citando o relatório da Comissão Europeia, que em 2009 havia na Grécia 907 mil funcionários públicos; e que em 2016 são 621 mil. Recomendo o artigo de Whelan, que pode ser lido aqui.

Não, não está em causa o que os gov…

Diálogos Pintados, IV: o capitão capitado

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, XX

Se me tivessem perguntado quanto custava ser fantasma, teria imediatamente respondido que não estava interessado. Foi um investimento demasiado oneroso para os resultados que afinal vieram a concretizar-se. E o problema da floração inesperada - rios de heras cantantes a desligar-se por onde tinha sido o corpo.
Não: porque havia sempre os custos associados à eternização de uma situação acessória. Chamam-lhe parcerias fantástico-privadas. Ainda me poderia caber uma privatização inesperada, e passar o resto da vida a vender para fora para pagar as contas de visibilidade de políticos incapazes. Doze vinte luas de fantasmar por outros é assunto pesado.
Decididamente, não: cortei a meio o fluxo de música que deveria assinar, e voltei à minha condição de concha.

Cem anos de Sviatoslav Richter

Voltávamos da praia, sob um cansaço azul. O carro separava-se da areia e do mar, entre palmeiras e a terra amarela e perfumadamente antiga do Algarve. No rádio, a perfeição: a suavidade em estado puro. Beethoven depois de uma tempestade, quando o mundo regressa da agitação.
Não tardou a terrível notícia: era Beethoven, sim; era o terceiro andamento da Sonata "Tempestade". E era Richter - que tinha acabado de morrer.
Tanta luz reunida, num único ser, em tudo o que tocou; pensei que era assim que o mundo acabava: quando os seres que criam luz e transparência na terra desaparecem. Mas que assim também um dia terminaria o mundo: num dia de mar dourado, ao som de Beethoven, numa viagem colectiva, morrendo com o som em direcção à luz.

Enquanto a Europa se devastava na Primeira guerra, uma luz rebentava dos escombros. Há cem anos, comemorados neste 2015, nascia Sviatoslav Richter. De mãe russa, pai alemão, numa pequena povoação ucraniana, entre o fim do tempo dos Impérios e o iníc…

Parvos há muitos, I

Um lobby de um hotel em Riga. Ele ao computador como se a vida disso dependesse, mas rodeado de colegas, e a fazer questão de dizer que (em francês mais forçado que a virgindade de Madame de Maintenon): "baf, ah ouie, je travaille". Somos apresentados. Acho-o simpático na barba rala loira e nos olhos claros. Metade polaco. E agora o que aí vem a seguir não é uma enxúndia, são apenas pérolas reais ao ritmo de uma por minuto:
- Ah, professor de português... E escritor. Deve ficar bem, pôr isso no CV. Eu também estou a fazer um Doutoramento e não tenho interesse nenhum em dar aulas. Fica bem no CV.
- Ah, há três anos fora de Portugal... Não temes perder o contacto com a língua materna?
- Ah, Português. Mas os brasileiros são mais e mais baratos, não é?

Meus senhores, achei-o simpático? Mais depressa lobos são cordeiros. Ele anda aí: e cuidado! Franco-polaco, atirador economicista, detentor das verdades sobre a vida de cada um e da língua em geral. É daqui que nascem todas as i…

100 Sem Nunca: As Sonatas para Piano de Mozart por Glenn Gould

Um álbum tão divisivo e iconoclasta que cada vez que o ponho a tocar temo que a aparelhagem quebre. Um álbum tão genial que mesmo os críticos que ainda hoje dificilmente aceitam Glenn Gould ignoram olimpicamente este "cometa vagabundo" (a expressão é de Supervielle). É o que acontece quando um homem reinventa um rio.

1. Porque não passo sem
Quer já conheça as Sonatas de Mozart de trás para a frente, ou apenas de toque de telemóvel, ou dos ferrinhos dos meninos quando começam a aprender o solidó, este Mozart a bordo do seu instrumento materno é uma sondagem sonora, um delírio rítmico, uma investigação radical: o piano esticado, puxado, levantado, atirado à sua melodia interior como uma pergunta. Primeira imensa qualidade: Gould investiga enquanto toca, encontra a canção de embalar Mozart na sua própria música. Gould entende como Mozart fazia destas sonatas-monólogos ao piano um laboratório e um regresso a casa. Segunda devastação: os Allegros rápidos são fulminantes, tirand…

"a ressurreição de Mozart"

Era apenas preciso um dia como aquele enovelado de ventos de todos os lados e de cansaços múltiplos, para lhe pedir: "aquele que é todo vitrais".
E assim que a agulha descia sobre o disco negro, renascia-se o mundo desde as suas raízes: Mozart refundava os rios, acordava o céu, limpava a luz. O Concerto Nº23, aquele em que Deus hesitou sair de dentro dessa música, água da água.
Havia também aqueloutro, onde todas as substâncias do mundo se reuniam para pesar o peso da luz: o Nº19, com Haskil e Fricsay antes de morrer.
Agora, enquanto Mozart 23 ecoava, Casadesus e Szell num dia de glória, tinha razão Nina Berberova, quando falava na "ressurreição de Mozart" - era a ressurreição por Mozart, que tornava a vida morta um rasgo de sol por onde se podia beber.