Avançar para o conteúdo principal

Diálogos Pintados, III: Colunadas

A Louise fez a merenda e o Jans trouxe as mantas largas que comprou em Gobelin, restos de quase tapetes. Eles gostam de se sentar na relva, onde é fresco e suave. E gostam de ir ali: a fonte é centenária, ninguém sabe bem quando foi feita, e sobretudo como ainda funciona. As colunas da direita dão sombra, entre as pedras nascem bagas deliciosas.
A sogra de Jans, que vem quase sempre embora nunca seja convidada, diz que tinha sido tudo de um barão que Richelieu prendeu, matou e expropriou, já lá vão quase 200 anos. "Um bispo primeiro-ministro, isso pode lá ser? É tudo invenções da velha", diz Jans, que acha que não havia vida antes da Revolução. Mas a velha diz que é o fantasma do velho Barão que lá vem cuidar da sua propriedade.
Desta vez foi menos agradável o serão. Quando a sogra vem, Jans não pode apanhar frutos com Louise e guardá-los no vestido dela, e depois apanhar mamas e maçãs com a boca molhada. E não só pela sogra: vieram uns alemães armados em xicos-espertos dizer que aquilo era Romano. Uma tipa punha-se mesmo a analisar, braço estendido. "Ná! Acho que a velha é que tem razão", disse Jans a Louise. "Porque é que o Papa vinha de lá para aqui fazer colunas e fontes e deixá-las aqui? Além disso as fontes tinham gajas nuas - e os padres não gostam disso".

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…