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Crôuvicas de Bruxelas: chegado chegante

Parou a bicicleta. À sua frente, o vento turbilhonava sem convicção, cuspindo umas gotas de chuva que não eram mas não deixavam de ser. O tempo em Bruxelas é como estar numa máquina de lavar. E depois é um tempo sem personalidade, sempre a mudar, nunca demasiado uma coisa nem demasiado outra, um contente neurasténico.
A bicicleta parou devagar. Ainda não estava habituado a ela. Tinha sido enganado na compra em 2a mão, as mudanças enlouqueciam na velocidade 4, mas havia sempre mais 3. E a verdade é que por mais que gostasse da sua velha bicicleta, um tinha andado a destruir o outro lentamente, com prejuízo para os ossos comuns.
Ao fundo, o pôr do sol sobre o Cinquentenaire. De onde tinha vindo aquele pôr do sol, quando há minutos era chuva e nuvens?
A mochila cheia de livros, com o portátil envolvido em burcas e burcas de sacos para não se molhar, e exercícios de gramática para os alunos. Acabava um dia de trabalho. Estava cansado. Deu por si a pensar em Inglês. De manhã não conseguia falar senão Francês, tinha um Alemão perfeito quando se irritava - sobretudo na bicicleta.
Tinha saudades de Berlim todos os dias. Às vezes, nos dias de chuva maior, podia jurar que cheirava ao Algarve, uma coisa entre impossível e distante, aquele cheiro de alfarroba, laranjeira, terra seca, figos e mar. Não eram saudades do Algarve, era uma certa forma de estar consigo mesmo. E os caminhos dourados e sozinhos entre Beja e Serpa, que lhe cortavam a garganta bem perto dos olhos. Sim, era desses lugares que tinha falta. Atravessar o Spree em Moabit, ver nascer o sol entre as árvores absolutas de Tiergarten, ver o pôr do sol na Praia dos Salgados entre sal e luz.
Não esperava ter percebido isso. Mas era a verdade, era inegável. A humidade de Bruxelas metia-se-lhe nos ossos, estava cansado da burocracia belga, de como a cidade acinzentava comportamentos e normalizava hábitos. Mas, de repente, compreendeu. Tinha chegado. Era, foi, é a vida que escolheu. E com o frio turbilhonante a meter-se nos gestos e a misturar-se com a água dos olhos, foi a tremer para casa, entre gratidão e gratidão.

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