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arqueobiografia, I: santo antónio



uma tarde de outono, com a N., naquela casa onde os fantasmas iluminavam as paredes, onde o próprio rio que se reflectia nas janelas era a corrente do sobrenatural, um Deus sem tempo veio ter comigo. esperava, aos cinco anos, que a minha mãe viesse. tinha-se atrasado três horas, e por mais que eu quisesse verdadeiramente estar ali, a sensibilidade trágica de N. fazia-me temer que algo pudesse ter acontecido com a minha mãe. com a estranheza de quem olhava para as imagens de frente, como se fixasse o invisível que estava dentro delas, pediu ao santo antónio que ela chegasse. não tinham passado mais do que cinco minutos quando ela bateu à porta.
         «N., o santo antónio é mágico?»
         «não. ele está antes do tempo e vê tudo o que lhe pedimos. ele vive dentro de Deus como tu vives dentro de uma casa.»

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