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Na Apresentação de Três Pianos



Uma Galáxia Por Dentro
Na Apresentação de Três Pianos, de Paula Dias

                Aprendi a pintar melhor, tenho a casa cheia de quadros. Agora quero aprender a escrever melhor.” Sei que não foi exactamente assim que a Paula me disse, mas é assim que recordo, numa manhã de um Sábado de sol largo de Março, em 2012, na Companhia do Eu. Lembro-me de nesse momento ter pensado, naquela que seria a última turma que eu ensinaria no espaço da Companhia do Eu, que deveria ser sempre assim: passar de uma arte para a outra, para aprender com a sede de uma arte o sumo da seguinte. Assim o fizeram Almada Negreiros, Mário Cesariny, Ana Hatherly em Portugal no século XX; e antes, enquanto a memória dos homens o sabe, Michelangelo ou Leonardo da Vinci, entre outros.
            E a Paula foi escrevendo, até que das palavras se foram formando cores, das frases traços – e da soma de ambos, quadros. Dos seus quadros até às suas narrativas, a mesma persistência do traço, o poder enredante da cor, os cruzamentos de espaços e tempos como cometas que rasgam a vida habitual para lhes trazer o inesperado jogo do Cosmos. É assim na primeira história, “Três Pianos”, a que dá o nome a este livro. Romeu, Margot e o tempo como um teclado tão impossível para três mãos. Neste conto, numa linha narrativa que vai percorrer todo o livro, Paula Dias representa o excepcional, o singular, que procura o regular, o plural: Margot e Romeu que lutam contra a partitura impossível que a sua singularidade joga com eles e neles.
            O livro também representa várias facetas do feminino: da Glória maternal da última história, cozinha e sabedoria, numa espécie de mãe primordial, a Carol e Clara que aprendem a ouvir o corpo, até ao absoluto feminino de Margot. Em todas elas, uma espécie de tempo do corpo, anterior e interior ao Presente, um terceiro piano, recupera o equilíbrio das personagens, os corredores do sangue.   
            Com um golpe inesperado, reviravoltante para o leitor que segue o livro conto a conto, aparecem os três contos de “outras lucubrações” (“última paragem”, “A Luísa Já Não Mora Aqui” e “A Malvina do Menino Jesus”). De repente, as personagens vivem para dentro, mergulhamos em conflitos interiores, densos, em mares da cabeça onde a história é um barco. A personagem que as liga é também o seu conflito, a esquizofrenia. Descrita em três gradações, entre humor e drama, passando pelo génio jogante de Pessoa no conto anterior, sentimos que contemplamos uma espécie de galáxia por dentro, sangrante.  E Paula Dias deixa o conflito correr: deixa, corajosamente, que o rio psicológico que retrata pegue na sua mão e na do leitor e pinte todas as paisagens que ficam entre o génio e o caos, entre a dor e uma janela para a paz.
Vamos subindo planetas, como quando dois pianos substituem uma orquestra, até ao conto final, onde várias personagens, espaços e conflitos se defrontam na personagem principal, Nobira. Paula Dias cria aqui um conto onde a narrativa opera em vários espaços, significados e dimensões, que nos faz querer que ela nos prometa escrever um romance.
Das paisagens luminosamente em ruínas do mundo interior, às mulheres que se aprendem a ser, ao palco maior que a vida de “pérolas para colar”, surge a certeza de uma palavra total: riqueza. No sentido em que escrevia Georges Bataille sobre as Grutas de Lascaux: “Aqui, pela primeira vez, a humanidade juvenil mede a extensão da sua riqueza. Da sua riqueza, quer dizer, do poder que ela tem de esperar o inesperado, o maravilhoso.”
            É isso que estes contos começam. E criam, como no caso de Carol no conto “Amor de Leitaria”, que deixa de respirar: este livro é sobre os momentos em que o corpo e o cosmos nos ensinam a não respirar, a ouvir o terceiro degrau do som, a esperar o maravilhoso formar-se na carne do nosso tempo. E aí aprendemos: que só progredimos com saltos no vazio.

Paula Dias
Três Pianos e Outros Exercícios
Lisboa, Ed. A., 2015
 ISBN 978-989-20-5513-8

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