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Montanhas para três nevoeiros



A manhã era toda feita de nevoeiro. A paisagem era só névoa, parecia tecida de brumas. Era a última viagem do meu velho carro, que precisava de assistência a cada cinquenta quilómetros: o motor velho precisava de  água. Dava de beber ao meu cavalo mecânico entre serras e penedos, estradas antigas e ventos fundos. Pois era a quarta vez na viagem. O carro parou, eu também; o motor fumava, eu também – o carro propôs-me fumar. Montanhas e montanhas para três nevoeiros. Uma placa, ao lado da estrada, entre pedras de altura, verdes velhos e uma manhã branca: “Serra do Montemuro”. O nome, enquanto o carro fumava e eu também, falava-me de montanhas que eram como muralhas.
Então percebi como se falava da “Cova de Viriato”: de como as legiões romanas eram surpreendidas entre estas montanhas espessas e brancas pelos pobres pastores lusitanos, que lhes deram guerra durante dez anos. Revi batalhas de ferro contra  granito.
O carro parou de fazer nevoeiro, eu também. Refizemos o caminho. Continuamos as curvas. E de repente, ao fundo, como preservada do tempo numa espécie de cortina de mistério e de pedra, a cidade. Não sabia se a cidade guardava o tempo, ou a pedra escondia a cidade do tempo. Os rios cruzavam-se para a encontrar. E aí percebi a origem do seu nome: “Que viso eu?” (que vejo eu, em Português antigo).
O nevoeiro agora era um caminho de pedra cinzenta até às ruas largas e antigas da cidade. Era uma espécie de chão.

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