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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2015

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, XIX

uma espécie de casa, I

Chegado a casa, depois de um dia onde posso ter falado três ou quatro línguas, preciso apenas de uma coisa: de uma velha página em Português. Onde a língua cheire a praias tempestadas, ao ruído do vento nas montanhas de Trás-os-Montes, ao calor áspero e antigo do Alentejo, ao cheiro mágico do Algarve rural, entre alfarroba, figos, laranjas e solidão. Eça, Nemésio, Natércia, Régio, e muito Rentes de Carvalho - o maior escritor português vivo. A página move-se, abre-me os seus adjectivos, abraça-me. Não é saudade, é para além disso: uma espécie de casa. Nunca antes me aconteceu. E preciso apenas de uma página. Como um céu que me dê um chão.

3-oitão

Pois é: o tempo é como um revolver 38, 3-oitão, como dizem os brasileiros: tiro certo, a cada ano, e não é pólvora seca. Nestes 38 celebro tanta coisa que aprendi a perder. "O poema ensina a cair", como dizia Luisa Neto Jorge, e não é o cair que ensina o poema, como tantas vezes pensei ao ler esta frase. Que duro e que fértil que nascer seja morrer tantas vezes, que os anos sejam escadas para além das mãos, que achar comece por perder.

Montanhas para três nevoeiros

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, XVII

não era uma cadeira, era uma forma de sentar. de pôr o corpo em ângulo, como uma pergunta. não sei há que séculos uma coisa e outra eram inseparáveis. era um museu de sentar, uma coisa tão antiga e muito mais estranha. porque por vezes era barco, outras vezes egipto. não sei. sei que do final do século XIX até hoje, esperou ser salva. e eu sou sempre de dar segundas hipóteses a objectos centenários - ou eles de mas darem a mim.

Na Apresentação de Três Pianos

e ainda, entre o coração e o tempo

Pois tinha de ser no dia da Ressurreição que encontrava estas palavras de Natércia Freire, publicadas há mais de sessenta anos no "Diário de Notícias":
"Quando perdemos alguém que muito se ama – insisto em não dizer que muito se amou – e nos afastamos da casa onde vivemos com esse alguém, largos anos, em comunhão, junta-se à dor de uma ferida sem remédio uma saudade que é desejo de regresso – como se à volta fosse possível a ressurreição."
Longe de todas as casas que tive e em que fui, e a aprender o que significa casa, há uma energia soterrada que parece levantar-se, e levar-me consigo. Quanto pesa a luz que vem do amor daqueles que já não são carne, mas luz?


Abingdon Labyrinth, found in an early 11th century copy of Boëthius, produced at Abingdon Abbey

uma falha no bater do coração do tempo

tanta morte acumulada, a vida como um campo após uma batalha. ainda não percebi o que é a Ressurreição.
lembro-me de há vinte anos a semana santa ser o eixo e o centro da minha vida. de cada gesto e de cada símbolo significarem milhares de anos e seres de promessas e libertações. muitas coisas passaram então pelo caminho estreito da aprendizagem do coração. mas nunca a semana pascal deixou de ser uma pergunta, um espinho de significado atravessando-me de um lugar ao outro do ser.
hoje, surpreendido pelo bater dos sinos sem parar, decidi ir à missa na paróquia aqui perto. Chama-se "Saint Antoine" e isso não é o menor dos seus mistérios. Foi a missa mais internacional que vi na minha vida, com todas as imensas comunidades de Bruxelas representadas e a tomar parte. Mas houve um momento, direi quase um segundo, uma falha no bater do coração do tempo: é por eu ter aprendido, é por eu aprender toda a extensão da morte, que eu preciso da Ressurreição. que eu preciso de querer perc…

o cheiro de um vitral acabado de colher

sei sempre como começo a escrever, nunca sei como escrever me começa. não é a minha profissão, não é a minha compensação de nada. apenas sirvo a linguagem e o que ela serve.
por vezes uma intenção, a clareza do ferro. outras vezes, menos e raras, o traço no vazio a procurar a sua própria forma. Há dias, o que nascia deste som: o cheiro de um claustro onde acabara de chover. onde o tempo, como um vitral, tinha sido acabado de colher.