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Troikão Coelhão à Caçador, I

O caso do primeiro-ministo que desconhecia que tinha de pagar a Segurança Social - mas que belo título para um romance de cordel, já que do Estado Social não sobra mais do que isso: um pouco de cordel, daqueles das mercearias que ainda vendiam fiado, que as contas da protecção comum ainda nos vão bater à porta num dia em que um banco precise de mais guita.
Ao caso em si já iremos (próxima crónica). Inquieta-me apenas que neste 6 de Março o caso esteja suavemente a ser transformado numa normalização do político implacável, numa humanização simpática. Explico: dantes, Passos Coelho era o Rambo da Troika, o Troikão Coelhão, implacável perseguidor dos altos objectivos da austeridade, o Salomão das Merkels. Para quem não se lembra desses belos tempos, estão aqui. Depois veio o caso da Segurança Social que não pagou durante anos. E agora veio a lume outro, dos cinco processos de execução fiscal que lhe foram levantados, como ele ilumina ao Sol. Ao afirmar não o ter feito muitas vezes por falta de "dinheiro" torna-se súbita e inesperadamente num cidadão comum. E de repente a alteração de rosto do primeiro-ministro vai ser operada: surgirá o líder para o próximo ciclo, um líder humano que dará médicos às velhinhas, subsídios às desempregadas, seguranças aos bancos. O executor implacável, ferido de morte por falta fiscal, arderá neste fogo da opinião pública até que, nova Fénix, emerja das cinzas como o cidadão humano, vítima da máquina fiscal e da vida árdua, perdoado de anos a ser mais troikante que a troika. É que subitamente ele representa o que os portugueses passaram durante estes últimos quatro anos: a trabalhar para o fisco, aflitos com impostos inventados à última para orgasmos do FMI, sem dinheiro para nada nem sequer para impostos, para depois cair na ratoeira (ou na coelheira) das coimas.
Atenção a este jogo de identificação, em que o Coelho que era antes Lebre se transforma agora em Coelho. Tem tudo para funcionar e para meter este homem de novo à frente do Governo.

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