Avançar para o conteúdo principal

Troikão Coelhão à Caçador, II



Quem acredita na história do Caçador Coelho que acabou Caçado?
Quem acredita no "conto para crianças" (a expressão é dele) de que
um ex-líder da JSD, deputado em dois períodos diferentes, administrador frequente, não soubesse que a Segurança Social é para pagar? Que aguardasse "ser notificado" para isso?
A questão não está na resposta; a questão até nem está no interessante e kafkiano tema do líder do Governo ser mordido pela burocracia da máquina que dirige. A questão também não está na verificação prévia que devia ser feita às situações fiscais de candidatos a primeiro-ministro, porque ela nem devia precisar de ser feita: acredita-se que César será mais sério que a sua mulher e a sua sombra. Dois primeiros-ministros de uma vez enredados em nebulosidades, com os dois seus antecessores a terem fugido do país e das suas responsabilidades, é obra.
O prato do dia, a meu ver, está no Caçador que se tornou Coelho: no primeiro-ministro que oleou a máquina fiscal para pagar o défice, criando a imagem de implacável com a dívida e os grandes banqueiros, e que agora se revela. Quem pode pedir esforços aos seus, e vender-se como administrador implacável para o bem comum, quando não cumpre os princípios básicos como cidadão? Note-se: "não sabia ser preciso pagar". Eis o primeiro-ministro eleito e abençoado pela troupe da austeridade para acabar com o Estado Social: aquele que na prática não acredita na Segurança Social.
Este é, simultaneamente, a mais clara mensagem e a pior notícia. O caçador do estado social acabou caçado por ele.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…