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mudança nº14

Quando se muda de casa pela 7a vez em três anos perde-se a ligação à matéria. Olho para as caixas à minha volta e penso que poderia resumir o que quero levar comigo de um lugar para o outro a muito poucas coisas. Alguns livros sem os quais não me sinto em casa, alguns discos (agora guardados no computador); quase nenhuns objectos. O seu valor ficou-me de memórias, de acontecimentos vividos em que esses objectos mantiveram e alargaram o seu valor: e assim cumprimos o nosso destino juntos.
Mas a consciência do presente e do passado, isso são as verdadeiras malas. Anoto tudo, querendo que o valor de um dia não se perca, e que "todo o oiro do dia" possa ser um dia transformado numa energia bem maior. Sétima mudança em 3 anos, 14ª em 37 anos de vida. Nossa senhora da mudança, que eu nunca deixe de a aprender.
Passei por vidas e pessoas que tudo fazem para ter quanto mais de material possam. Isso interessa-me cada vez menos, porque do outro lado da balança está liberdade interior. Dessa, nunca tenho suficiente.
Faço as malas, não para o futuro, não para o ideal. Faço as malas para a morte, porque não é a morte que me vai ensinar a libertar-me da materialidade, é a própria vida. Faço as malas para quê, pergunto-me, agradecendo a cada objecto ter sido criado, ter sido útil, ter gerado utilidade, conforto. Faço as malas para onde, pergunto-me de novo? Faço as malas para a luz.

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