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Europe by Train: os vencedores de Waterloo



 
Eram vinte.
- Vinte e dois, estamos todos – precisou o chefe de fila.
Entraram como a cavalaria pela carruagem quase deserta. O chefe de fila, cachecol demasiado ao peito, fez questão de me dizer num sotaque belga pronunciadíssimo, que o lugar ao lado do meu, onde adormecia a minha mochila, era deles. Típico chefe paternalista, com os bilhetes na mão, a decidir onde se sentavam os meninos. As calças vermelhas davam-lhe um ar ridículo para a idade (cinquenta carregados que pareciam setenta negados), o cachecol fica ainda mais pronunciado agora que o refiro de novo, a camisa informal não dá com nada, nem sequer com boa vontade e umas Leffe em cima.
Sentou-se a troupe. Vinham de Waterloo e iam até Frankfurt.  Uma reunião de trabalho. Porquê e para quê, não sei. O chefe de fila até as conversas administrava, e ria-se por cima de todos.  Esta coisa românica do cônsul que tem de mandar até no riso.
O meu lugar ao lado ficara por ocupar. Ao parar em Köln, ela chega, saia às riscas longas e largas, mala atrás, tudo organizado com eficiência feliz alemã. Os dois ao meu lado foram interrompidos pela chegada da senhora.
- Das ist mein sitzplatz (este é o meu lugar).
Ele aponta e diz em Francês para se sentar ao meu lado.
- Nein, ich mochte gerne mein sitzplatz nehmen.
- Comme vous voulez.
- Ganz genau.
E assim as diferenças belgas e alemãs ficaram claramente expressas. O belga improvisa, a alemã faz o que está programado.
Claro que  o consul cachecoludo meteu a viola no saco. E assim se vence em Waterloo.

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