Avançar para o conteúdo principal

Crónicas de Berlinzâncio: americana a metro

Há dias ia no célebre Ring (não o dos Nibelungos, mas o do metro de superfície, o S-bahn, que faz a ligação com a zona central da cidade, sempre a rolar, sempre a rolar, metros de 5 em 5 minutos na hora de ponta, 10 em 10 às horas mortas, sem contar com as benditas obras que fecham parcialmente parcialmente). Entrou uma americana com ascendência claramente Porto-Riquenha. Vinha com as suas Louis Vitton, o seu cinto Chanel, saia e casaco Armani (isto não sei mas deduzo), e aquele ar de quem é dono da Europa. Sem mais, volta-se para mim em inglês:
- Where do I buy the ticket in the train?
Na outra fileira de lugares estava uma alemoa de cabelo preto (pesadelo para o Hitler, loucura para os albinos daqui), muito maquilhada como a Sally do Isherwood que inspirou o musical Chicago. Boina preta, casaco vermelho vivo, já me tinha olhado várias vezes. Eu continuava a escrevinhar o meu journal com um norueguês à frente que lia um livro do Stephen King e que falava ao telemóvel com a namorada em inglês com voz melosa (Stephen King e voz melosa: crime certo). Bom, eu olho para a Sally da boina preta e do casaco vermelho, cara de boneca de porcelana, e respondo à senhora:
- No way you can buy it here. You must leave the train and buy it in the station.
Ela olhou para mim com ar de desprezo e fez mesmo aquela boca de lado típica do desprezo nos filmes do oeste. Só não cuspiu para o chão porque não era suficientemente mulher para isso. «Ai é, pensei eu. Então cá vai»:
-And beware, because they fine very harshly here.
Não era maldade, era verdade: logo ao meu início, uma adolescente tentou a sua sorte com sorrisinho e a cantiga da menina perdida, e levou um ticket de 150 euros para pagar (foi assim que aprendi a dizer 150: o homem disse-lhe tantas vezes para a calar que cheguei a casa e foi logo a primeira coisa que então perguntei aos germanofalantes).
Bom, a americana fez-me um esgar parvo, como se tivesse cólon irritável e a culpa fosse minha.
- You should ask someone else.
Claro que a Sally respondeu logo, num inglês com um cheirinho de alemão:
- He’s right.
A americana não largou a mala e ficou irritada. Pôs-se a contar euros como se fosse uma moeda amaldiçoada (bom…). Sussurrava: «stupid money». Tinha os olhos de todos da carruagem na cara dela, e eu senti-me verdadeiramente europeu.
Parou o comboio. Eu tive pena dela e disse:
- It’s those white booths there.
- Could you help me?
«Querias, não?», pensei para mim. A tipa, que na América nunca aprendeu a dizer obrigado, queria que eu saísse do comboio e fosse ensiná-la a pagar o bilhete, e perdesse o comboio, e ficasse com ela de vela, ao frio (3 degrees and ventosão), sem um obrigadinha, moço sequer. Levou logo resposta – só aqui me saem destas:
- I am very sorry. The booth has an english option. I am sure they are more simple than the american ones.
Olhei para a Sally, que se riu esbugalhadamente para mim com olhar maroto. Saiu em Gesundbrünnen, estação que eu particularmente gosto porque é para lá que se sai para Badstrasse, e porque o nome cheira a verde. A Sally sorriu-me como nem Eva depois da maçã, digo eu [hipótese fascinante, porque faria da americana a cobra, do bilhete a maçã, e do casaco vermelho da Sally a consciência de estar nua]. E, sonho decerto, sorriu-me e acenou-me. Ah, senti-me um herói de tragédia grega. Tivesse eu saído em Gesundbrünnen e já estaria em Badstrasse com uma catrefa de filhos a serem treinados para figurantes do Chicago.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Uma expandida, outrada manhã

Uma manhã larga, com cheiro fresco a relva, prados sucedendo-se a prados, os olhos a correrem a descobrir o sol. Era assim que queria esta manhã: expandida, desdobrando-se, céu e campos a desmedirem o dia.
Uma manhã que não fosse minha. Que não fosse deste corpo, da memória destes olhos, do alcance dos pés ou das memórias - que fosse mais alta que eu. Uma manhã que fosse de outro ser, mas que esse ser fosse eu.
Uma sensação total e toda estrangeira, intacta e toda: onde eu pudesse ser mais além deste feixe de ossos e carne, tudo lugares que conheci e que me limito. Onde eu pudesse ser o começo, os astros desmesurando-se, a vida nova e inteira: uma manhã, correndo para o sol, a extensão plena e outra.

(para a Cuenca; e para a Claudia, o Miguel e o Nemo)

Crónicas de Berlinzâncio: hibernatio

Despedia-me da rua sabendo que nunca mais nos voltaríamos a encontrar. Poderíamos um dia voltar a ser o mapa e os pés um do outro, mas não a mesma geografia.
Tinha nevado e as árvores estavam cobertas de neve, com sol. Soou a regresso, a uma hibernação -  como quando uma memória se fixa, se guarda dentro, para não desaparecer mais.
Hibernatio, hibernação. Agora percebo, por causa do frio, da neve, de a própria natureza ficar coberta de um manto branco, pacífico, hiber, do inverno. Mas natio vem de nascer. E é isso que tem acontecido comigo - nascer de novo. Pela solidão, pelo espelho tremendo que Berlim é para mim, interiormente reflectindo-me em sítios interiores onde não quero ser e onde não queria estar, e no seu oposto. Mas sempre com os pés nesta terra inquieta, nova, imparável.
A memória acorda, agora, dessa despedida de há cinco anos, quase seis. E o mundo parece gelado, de tal forma conteúdo e imagem se transformaram na pele mais densa; na casa; no corpo.

O rapto de Europa

A História começou com um rapto de três mulheres - uma delas, Europa. Bom, não a História mas as Histórias de Heródoto. Se a considerarmos como o primeiro grande livro de História do mundo, depois de tantos outros onde se inspirou e que agora são apenas ecos, então a História começou com Heródoto e com três raptos. Por mais que tenha lido o início, espanto-me sempre com o momento, simples e despretensioso, em que depois de duas páginas de povos, actos, nomes e raptos, Heródoto explica ao que vem: "humanos e prosperidade nunca passam muito tempo um ao lado do outro". Há 2500 anos, já Heródoto tinha compreendido que o conflito é a tentação do homem. A Europa vive há setenta anos com paz. Nenhuma guerra devastou o continente como parece ter sido marca da sua história desde tempos imemoriais. Isso deve-se à União Europeia. Com todas as dificuldades e falhas do modelo europeu - e um certo modelo financeirista deste modelo europeu, mas isso é outra conversa - esse conflito foi al…

Depois do Facebook (ou o novo ano mil)

Faz hoje precisamente um mês que apaguei a minha conta Facebook. Foi como deixar de fumar: uma breve privação, e depois parece que nunca existiu.
Em troca, prometi-me ler muito mais e prometi aos amigos escrever emails mais longos. Passaram 4 semanas e em cada uma delas um longo email seguiu para pessoas que amo e com quem agora troco muito mais do que um "page down", um polegar para cima, ou um sorriso sem conteúdo. 
A que querem as redes sociais que fiquem reduzidas as nossas interacções? Leio no "The Guardian" que nos últimos anos os jogos de tabuleiro têm conhecido um aumento louco de interesse e de vendas. Uma interacção real, mesmo que mediada pelo jogo; ao contrário daquela que as redes sociais oferecem, que não é real e sofre todo o tipo de mediações (e de intermediações). Mais: que desenvolve uma espécie de mentalidade fechada. Torna-nos voyeurs permitidos, comentadores de bancada das vidas dos outros, distraídos com distracções de distracções.  Mas saber…

o que nunca deixou de ter sido, I: a timidez consigo mesma

Despedimo-nos depressa. A noite entornava-se de frio, os gestos ficavam estranhos, gastos depois de muitas cervejas, cigarros; e o cansaço de tantas paisagens emocionais que fizemos falando juntos, os pés enlameados disso, dessa espécie de viagem e encontro - sem fuga. Eu não tinha nada para lhe dizer depois de uma noite assim, ao contrário do tempo; e ela ainda menos, talvez subitamente tímida mas não comigo. Uma espécie de timidez que só encontrei na Dinamarca, uma timidez dela consigo mesmo. A taberna do canto no meio da Bergmannstrasse parecia agora cortar a cidade a meio: três da manhã  de um sábado onde faziam menos dez graus, uma neve escassa e rala, já suja, os meus gestos frios e os dela estranhos.  Não havia números para trocar, propostas para fazer, futuros para combinar: nós não éramos os gestos seguintes um do outro, e nem os queríamos. Não era sexo o que nenhum de nós queria um com o outro a seguir, ou mesmo nunca, nem ao início. Mas saímos com a sensação de que saíamos…

o parafuso de ferro

Já é automático. Durante anos não foi. O automatismo custa: dois anos, um e meio deles durante cinco horas por dia. Sentia que me tiravam o cérebro às oito da manhã, o martelavam incessantemente durante cinco horas, e o voltavam a pôr no lugar. Ou não bem. Talvez seja esse o uso do cérebro - nunca estar bem no mesmo lugar. E quando começava a conseguir balbuciar, pára tudo.  Falo da minha aprendizagem de alemão, quando vivia em Berlim. Não acredito tanto no "burro velho não aprende línguas" mas mais na surpresa que é perceber como é a forma como aprendo; e depois disso, perceber como o método de aprendizagem de cada um pode ficar enferrujado.
Mesmo tendo trocado o alemão pelo francês como língua diária, ele continuou lá: os seus magníficos e ultra-resistentes parafusos de ouro mantendo ligações distantes no meu cérebro. E eis que a vida me levou a aprender Neerlandês. Ao início, parecia fácil: o alemão ajudava-me a compreender muito. Mas depois, o caos: assim que abri os lá…

Irregularis

Em Dezembro de 2017 retomei este blogue, depois de um ano de pausa. Prometi mantê-lo activo durante um ano pelo menos: e cá estive todas as quartas e domingos.
Um projecto de escrita na fase final leva-me a suspender o blogue sine die. Mas desta vez prometo ir postando uma crónica de vez em quando, ao sabor dos dias. O blogue continuará, em modus irregularis.
Agradeço aos leitores, e agradeço à vida que continua a surpreender e a criar mais vida, apesar dos tempos escuros em que navegamos.
Até sempre já.