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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2015

a coordenada mais alta

morreu o Herberto, e se eu soubesse toda a altura de escrever, saberia escrever sobre isso.
quero celebrá-lo em duas memórias. a primeira vez que li um poema dele. tinha vinte anos. o diogo abria o livro e começava a ler: "a manhã começa a bater no meu poema". ouvi o sangue, subia, era a sua própria escada, um desenho de Deus à beira-mar, a sede toda água e Mãe. era a voz da poesia mesma, como numa ilha levantada à borda do mar Jónio, numa noite de céu arrasado numa viela em Bruxelas, bêbado de Mahler, no coração rápido de Berlim; era uma lenda índia trazida por um grifo assírio, derramada em fogo numa floresta em gelo. mais do que poesia, era uma coordenada, o que se vê para além da língua.
depois, da única vez que nos encontrámos. as palavras que me disse sobre biofagia, que então tinha publicado, e que o Jorge Henrique Bastos lhe tinha levado. guardo-as para mim, bem como a uma longa conversa sobre José Régio, sacristias, anjos e ratas.
um poema não morre. como um cabo no…

desnaufragadas: páginas de Diários dormentes, II

(há quantos milhares de sentimentos atrás isto foi?)


Crónicas de Berlinzâncio: americana a metro

Há dias ia no célebre Ring (não o dos Nibelungos, mas o do metro de superfície, o S-bahn, que faz a ligação com a zona central da cidade, sempre a rolar, sempre a rolar, metros de 5 em 5 minutos na hora de ponta, 10 em 10 às horas mortas, sem contar com as benditas obras que fecham parcialmente parcialmente). Entrou uma americana com ascendência claramente Porto-Riquenha. Vinha com as suas Louis Vitton, o seu cinto Chanel, saia e casaco Armani (isto não sei mas deduzo), e aquele ar de quem é dono da Europa. Sem mais, volta-se para mim em inglês:
- Where do I buy the ticket in the train? Na outra fileira de lugares estava uma alemoa de cabelo preto (pesadelo para o Hitler, loucura para os albinos daqui), muito maquilhada como a Sally do Isherwood que inspirou o musical Chicago. Boina preta, casaco vermelho vivo, já me tinha olhado várias vezes. Eu continuava a escrevinhar o meu journal com um norueguês à frente que lia um livro do Stephen King e que falava ao telemóvel com a namorada em …

Europe by Train: os vencedores de Waterloo

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, XVI

foi tarde demais que o espelho se levantou, áspero e ágil. percorreu como chuva súbita os passos entre as coisas. procurou o meu corpo. as suas lâminas tocavam como mãos perdidas, esquinas de sede.
o espelho levantou-se. pôs-se diante dos meus olhos. queria entrar neles.
foi apenas a custo que lhe consegui explicar, impedindo a sua fome:
não posso ter a tua imagem, porque não tenho um corpo. eu sou só os ossos do espelho.

desde aí que desconheço quem me olha do espelho, como se procurasse alguma coisa antiga, no fundo dos bolsos da alma.


Troikão Coelhão à Caçador, II

Quem acredita na história do Caçador Coelho que acabou Caçado? Quem acredita no "conto para crianças" (a expressão é dele) de que um ex-líder da JSD, deputado em dois períodos diferentes, administrador frequente, não soubesse que a Segurança Social é para pagar? Que aguardasse "ser notificado" para isso? A questão não está na resposta; a questão até nem está no interessante e kafkiano tema do líder do Governo ser mordido pela burocracia da máquina que dirige. A questão também não está na verificação prévia que devia ser feita às situações fiscais de candidatos a primeiro-ministro, porque ela nem devia precisar de ser feita: acredita-se que César será mais sério que a sua mulher e a sua sombra. Dois primeiros-ministros de uma vez enredados em nebulosidades, com os dois seus antecessores a terem fugido do país e das suas responsabilidades, é obra. O prato do dia, a meu ver, está no Caçador que se tornou Coelho: no primeiro-ministro que oleou a máquina fiscal para pa…

Troikão Coelhão à Caçador, I

O caso do primeiro-ministo que desconhecia que tinha de pagar a Segurança Social - mas que belo título para um romance de cordel, já que do Estado Social não sobra mais do que isso: um pouco de cordel, daqueles das mercearias que ainda vendiam fiado, que as contas da protecção comum ainda nos vão bater à porta num dia em que um banco precise de mais guita. Ao caso em si já iremos (próxima crónica). Inquieta-me apenas que neste 6 de Março o caso esteja suavemente a ser transformado numa normalização do político implacável, numa humanização simpática. Explico: dantes, Passos Coelho era o Rambo da Troika, o Troikão Coelhão, implacável perseguidor dos altos objectivos da austeridade, o Salomão das Merkels. Para quem não se lembra desses belos tempos, estão aqui. Depois veio o caso da Segurança Social que não pagou durante anos. E agora veio a lume outro, dos cinco processos de execução fiscal que lhe foram levantados, como ele ilumina ao Sol. Ao afirmar não o ter feito muitas vezes por f…

mudança nº14

Quando se muda de casa pela 7a vez em três anos perde-se a ligação à matéria. Olho para as caixas à minha volta e penso que poderia resumir o que quero levar comigo de um lugar para o outro a muito poucas coisas. Alguns livros sem os quais não me sinto em casa, alguns discos (agora guardados no computador); quase nenhuns objectos. O seu valor ficou-me de memórias, de acontecimentos vividos em que esses objectos mantiveram e alargaram o seu valor: e assim cumprimos o nosso destino juntos. Mas a consciência do presente e do passado, isso são as verdadeiras malas. Anoto tudo, querendo que o valor de um dia não se perca, e que "todo o oiro do dia" possa ser um dia transformado numa energia bem maior. Sétima mudança em 3 anos, 14ª em 37 anos de vida. Nossa senhora da mudança, que eu nunca deixe de a aprender. Passei por vidas e pessoas que tudo fazem para ter quanto mais de material possam. Isso interessa-me cada vez menos, porque do outro lado da balança está liberdade interior.…

Europe by Train: Tranches e Tranças