Avançar para o conteúdo principal

O Último Sorriso, 1/2

[Partilho um conto publicado anteriormente em Museu de História Sobrenatural, 2007).

O ÚLTIMO SORRISO



já era demasiado tarde; de certeza que ele não viria. fechou a portada de madeira, primeiro, e depois a janela irregularmente pintada de branco. mas suspendeu-se a meio, ou um ruído a suspendeu a meio. eram onze horas e dezassete minutos do dia vinte e quatro
        tinha sido no dia vinte e quatro, tinha a certeza absoluta. era o dia de ir ao cemitério, vê-lo, assim tão suave e sorriso na fotografia encostada à pedra, tão se sossegando, tão a sossegando. foram tantas as inquietações em vinte e quatro anos de casamento, tantas mais as torturas mútuas, desavergonhadas pelo hábito dos anos, por excessiva permissão dela.
        o mundo de uma mulher é o do seu homem
        ainda a voz da mãe, tantos anos depois (vinte e quatro, pareciam mesmo ter sido vinte e quatro), naquele dia em que tinha ido ao cemitério ver o que restava do seu mundo, festejando a dor com as palmas caladas das mãos no frio corpo possível, tão de pedra.
esperámos tantos anos por nós mesmos e só chegamos na morte
, pensava para si a caminho do cemitério; papéis trocados, ele agora é que a esperava, tão suave e sorriso, quando ela voltava, em dóceis quintas-feiras e dias vinte e quatro, a vigiar-lhe ervas daninhas e flores murchas. no Inverno é que não valia muito a pena, já sabia, eram maiores os estragos nas flores que o efeito, e já tinha muitas vezes lá passado várias manhãs de vinte e cinco a apanhar o resto das pétalas atiradas para outras campas. tinha a certeza de que até morto ele era inquieto, as pétalas como braços dele a meterem-se com as mulheres acampadas, silenciosas, com o seu sorriso tão definitivo, tão de pedra, tão final. anos desassossegados em que ela tinha sentido que o coração é uma dor constante, um corredor de vertigens. mas sempre o esperara da mesma forma, na cadeira mais distante da janela, o romance nas mãos, o terço no outro, suave e sorriso perpetuamente. era o que ele via; mas ela sabia das mãos desesperadas percorrendo casacos, os cabelos coleccionados guardados nos envelopes escondidos debaixo da estante da sala, das suspeitas, das corridas todas as noites da janela entreaberta para a última cadeira da sala – para que ele soubesse que ela era o seu mundo, que ela o esperava esperando, suave e sorriso
tinha ido portanto essa manhã, dia vinte e quatro, estava certa. mas foi inquieta que fez o caminho para casa, passando pela igreja, depois pela praça, depois pelo jardim, ladeando o tribunal alto e branco de que conhecia de cor as frases latinas, tudo a dardejar-lhe a cabeça como uma coisa estranha, entre o medo, a libertação e o prenúncio. passara todo o caminho, e todo o caminho de horas depois, a recriminar-se por tristes ideias, por elucubrações fantásticas, excessivas; a janela não parara de mover-se, nesse dia vinte e quatro estranho, caloroso, de brisas repetidas, ansiosas. e também ela não, dentro do seu pensamento, desde que tinha ido essa manhã, os pés um depois do outro, à espera de o encontrar no mesmo lugar, esperando-a. pareceu-lhe então isso, para além das flores murchas, e do que provavelmente a chuva fizera nos dois dias anteriores. as brisas já caíam ansiedade sobre os gestos, sobre as pétalas voadas por todo o lado, pelos bordos da campa sujos de terra, pelo esgravatamento que a água parece fazer quando passa desordenada. mas o seu coração voltou a sentir aquele esticão de ansiedade. nada lhe garantia, nada, nada, mas podia jurar que a pedra tinha sido mexida. não havia marca nenhuma de profanação, ninguém se queixara, não tinha havido notícias. mas ela podia garantir, podia mesmo. ela tinha a certeza disso mesmo: que ele tinha saído dali

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…