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Europe by train: o mistério da gentrificação




Era só uma viagem breve entre Bruxelas e Colónia. Sem factos nem dados, um comboio de sono a atravessar a Bélgica entre dois nevoeiros e bocejos.
Sentei-me a uma janela, entre a ocupação (inabitual) de chineses perdidos e de russos em trânsito. Malas, malas, perguntas. Já se diz no burgo que a crise do rublo está a levar muitos russos a comprar em massa casas em Bruxelas. Não sei como fazem, com a volatilidade da moeda, nem com as sanções, mas é certo que o fazem. O casal de vinte e muitos anos, ele farto das malas e da conversa cinzenta dela, não parecia contente por voltar à Rússia. Ela um pouco mais escura, talvez com sangue cazaque misturado com os traços claros e pétreos, enquanto ele era todo o rosto da russificação. Ela, aliás, estava zangada com tudo: foi chamar o revisor (alemão) para saber onde se podia sentar. Com calma, ele explicou-lhe que tudo o que não está marcado está livre. Mas ela ali ficou, no meio da coxia, com o marido a aguentar as malas, dois metros de gorro na cabeça e ar enfastiado, até que ela decide dizer alto:
- Somos dois e queremos sentar-nos juntos.
Recusava-se, pelos vistos, a pedir aos chineses que se reorganizassem.
O belga cinquentão sentado ao lado desta feira russa suspendeu a leitura do “Le Soir” com as novidades da entrevista televisiva do Primeiro-Ministro, apontou-lhe o lugar, como se fosse ainda  mais óbvio.
Mas não, ela pequena  e princesa, pintada e prateada, queria sentarse onde estavam outros, sem ter de pagar.
Bom, sentaram-se. Ele pôs as malas e retorcia a boca às questões dela.  O chinês ao lado espalhafatava mapas. A russa incomodada. O marido ainda não tinha acabado as queixas. Percebi que o chinês queria instruções, e passaram para um inglês siberiano que pareciia um sketch dos monty pithon. Resolvida a vida do chinês, continuaram a conversar. Foi então que veio esta pérola::
- Viemos comprar uma casa em Bruxelas. É a capital da Europa, pois. Boa renda, os europeus têm sempre dinheiro.
O chinês ria, abanando a cabeça em concordâncias sucessivas. “Gulde idéa, gulde idéa”, os óculos de marca baloiçando, a roupa cara comprada na Toison d’Or.
E ali, entre malas russas, chineses perdidos e bélgicas entremeadas, foi-me revelado o mistério da gentrificação; ou melhor, foi-me rublado.

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